Cyrano Mon Amour, a história do criador

Uma pequena ode ao teatro francês! Não no sentido depreciativo, mas no aspecto da sutileza, já que não deixa escancarar narcisismo em nenhum momento graças à veia cômica delicada. Essa é a principal marca de Cyrano Mon Amour, filme participante do Festival Varilux de Cinema 2019.

Nele, Edmond Rostand (1868-1918) interpretado por Thomas Solivérès, escritor e dramaturgo do fim do século XIX, aceita a tarefa de erguer do nada e em rapidez vertiginosa uma peça encomendada por Constant Coquelin (Olivier Gourmet) sobre aspectos da vida de Hector Savinien de Cyrano de Bergerac (1619-1655), um escritor cuja fama de nariz grande o obrigou a duelar inúmeras vezes por sua honra.

Lucie Boujenah e Thomas Solivérès em Cyrano Mon Amour
Lucie Boujenah e Thomas Solivérès

Na célebre situação “contra todas as adversidades”, Rostand vai montando o texto. Supera o bloqueio inicial pela relação com seu amigo Léo (Tom Leeb) e sua musa inspiradora Jeanne (Lucie Boujenah). Enfrentando toda a sorte de adversidades esperadas para esses casos (dificuldades com os atores, falta de tempo e recursos, pressões de credores e crises familiares), nosso protagonista percorre assim seu caminho que espera-se ser de autoconstrução.

O que se destaca em Cyrano Mon Amour

No fundo, esta é uma adaptação da peça do próprio Alexis Michalik sobre a montagem original de Rostand. Em um ritmo de montagem mais frenético do que o usual para o normalmente delicado cinema francês (o que o aproxima de uma película americana, mais um exemplo do bom diálogo tradicional entre essas duas escolas), colorido, divertido, leve e voltado ao seu texto, Cyrano Mon Amour abusa de câmera em movimento fluido (uma bonita cena em especial se destaca, acompanhando as ações no palco) e compartilha com O Artista (2011) o desejo de cultuar uma arte (vide os créditos: fique até eles).

Cyrano Mon Amour

O entrar e sair de cena repentino de personagens agiliza o ambiente. Assim, joga para mais perto do público o espaço da ribalta. A necessidade de um dual para Rostand (na pele de Léo), o platonismo e falas românticas usuais (“O desejo é o que leva a conquistar impérios”) traz ao trabalho, contudo, uma certa obviedade e alguma cafonice. O culto ao estilo de texto do Romantismo pode provocar bocejos no atual frequentador de cinema, que não acredita mais, via de regra, nos exageros sentimentais dessa escola.

Festival Varilux de Cinema Francês

Um outro aspecto a considerar é a evolução da relação entre o dramaturgo Rostand e sua esposa; uma problematização e a solução apresentadas são superficiais, como de resto é a proposta. A veia cômica em nenhum momento é superada pela sisudez. Fica um desejo no fundo de que a profundidade na reelaboração de Rostand fosse maior, mas não é essa a intenção na real. As relações humanas são forjadas para serem floreadas e idealizadas, e mesmo os comportamentos individuais seguem o script romântico.

Apoiado por bons trabalhos dos atores e sobretudo das atrizes, o que sobra é um trabalho leve, escapista na linguagem e açucarado, mas não tonto. O que se espera de uma escolha da curadoria do Festival Varilux afinal. Mas, pensando bem, para momentos difíceis e turbulentos, oras, que mal há no platonismo? Cyrano Mon Amour entra em cartaz no dia 27 de junho.

Cyrano Mon Amour

Nome Original: Edmond
Direção: Alexis Michalik
Elenco: Thomas Solivérès, Olivier Gourmet, Mathilde Seigner, Simon Abkarian
Gênero: Comédia, Drama, História
Produtora: Légende Films
Distribuidora: A2 Filmes
Ano de Lançamento: 2018
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