Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – 1ª temporada

Anime pega tudo que há de melhor no shounen e executa com beleza técnica e competência textual

A produção Demon Slayer é baseada no mangá que vem sendo publicado na Shõnen Jump desde 2016, da misteriosa mangaká Koyoharu Gotouge. Ela se passa em um mundo em que onis (demônios do folclore japonês) existem e se alimentam de sangue e carne humana. Neste cenário, o protagonista Tanjiro é um jovem que encontra toda a família chacinada pelas criaturas, exceto sua irmã, Nezuko, transformada num deles.

A trama se desenrola a partir dessa premissa e segue toda a cartilha do gênero, sem qualquer vergonha disso. Portanto, fases de treinamento, de “concurso”, de primeiras missões, novos colegas para o grupo, entre outras, são usadas como manda o jogo. Já vimos essa fórmula antes, mas Gotouge sabe mexer no tabuleiro, expandindo a mitologia conforme a trama avança, enquanto desenvolve seus personagens de maneira maravilhosa.

Demon Slayer

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A começar por Tanjiro, que diferentemente da maioria dos protagonistas shounen, carrega uma sensibilidade singular. Respeitoso sem ser pedante; emotivo sem ser chorão; empático sem ser forçado; o moleque nos convence de sua personalidade e fisicalidade por conta do bem trabalhado background. Sendo ele o irmão mais velho de cinco irmãos e substituindo a figura do pai falecido, acabou por assumir todas as tarefas braçais e de renda do lar.

Portanto, quando a tragédia lhe acomete, é natural que ele enxergue na transformação da irmã uma condição de doença que precisa ser curada e o tratamento que ele dá a ela é realmente humanizado. O mesmo dá para dizer de quão respeitoso Tanjiro é, mesmo diante dos inimigos. Não há prazer nas mortes que executa e, na maioria delas, inclusive é dado o perdão, pela pena que sente daqueles pobres coitados (todos os onis já foram humanos, afinal). Empatia que chama.

Por isso mesmo, a relação do protagonista com Nezuko é tão cativante. Nesse ponto, remetemos a Ed e Al do insuperável FullMetal Alchemist: Brotherhood, com camadas que sustentam o amor fraterno o tempo todo. A menina ainda consegue guardar fofura em seu jeitinho de ser (por mais que a necessidade de fanservice às vezes danifique isso).

Mais personagens

Zenitsu e Inosuke são impagáveis e conseguem formar um grupo divertido e com dinâmicas orgânicas, pois todos ali se comportam como moleques e não mini-adultos. Enquanto o exterminador medroso esconde um lado corajoso quando pega no sono, o garoto com máscara de porco e chucro, tem uma honestidade e autenticidade sem igual. Outras figuras, tanto entre os onis quanto entre os aliados, guardam surpresas interessantes, mesmo que presos a clichês do gênero (como o fato de que quase todos parecem estar fazendo cosplay), o que mais uma vez é retrabalhado com paixão em suas identidades.

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Ainda não sabemos tanto dos misteriosos Doze Kizuki (seis ali são verdadeiramente importantes), mas os Hashiras (o alto escalão dos exterminadores) são estereotipados ao extremo e precisam de mais tempo para se provarem, ainda que seus visuais sejam bacanas, como é de todo o elenco. A autora conseguiu criar designs e figurinos marcantes, especialmente entre o grupo principal, enquanto o estúdio Ufotable dá um tratamento impecável a animação, digna somente de filmes (geralmente séries animadas não ganham tanta qualidade por conta do tempo e custo de produção).

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É realmente sensacional e de encher os olhos todo o trabalho de ambientação realista (numa computação gráfica que não desequilibra o jogo) e o quanto isso contrasta com os personagens, que guardam o traço original de Gotouge (incluindo sua particular e irregular lineart), o que torna o material bastante único e superior, esteticamente falando, a outros animes do momento. Repare, ainda, na maneira como os poderes ganham uma arte própria, quase toda feita à mão, inspirados por um estilo da Era Edo, de xilogravuras. E não nos esqueçamos da belíssima trilha sonora, desde a grudenta música de abertura, até mesmo as faixas que entram pontualmente nos momentos-chave.

Com um vilão terrivelmente assustador (que como manda a cartilha, ainda comanda uma organização maligna, ao melhor estilo Juppongatana de Rurouni Kenshin), segredos acerca do protagonista e com um momento poderoso, repleto de energia, impacto e emoção (sim, Rui e episódio 19, estou me referindo a vocês), Demon Slayer é, assim, uma história que não busca reinventar a roda, mas usa os clichês do gênero em favor de sua narrativa cativante, com uma qualidade de animação superior e que certamente já se tornou uma grande aposta para o futuro.

Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - 1ª temporada

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