Misbehaviour – Feminismo, mas com ressalvas

Sally Alexander (Keira Knightley) é uma mulher à frente do seu tempo, que resolve voltar a estudar depois que já criou sua filha.

Logo ela conhece um grupo de mulheres que está lutando por direitos iguais. Elas pretendem invadir o concurso de Miss Mundo daquele ano, como forma de criticar o padrão inalcançável imposto. Além disso, criticar a objetificação das mulheres e todos os aspectos patriarcais que circundam esse tipo de competição.

Eventos reais inspiraram a trama de Misbehaviour.

Keira Knightley e Gugu Mbatha-Raw em cena do filme
Keira Knightley e Gugu Mbatha-Raw em cena do filme

Misbehaviour – Fato histórico

O filme cobre os acontecimentos da competição de miss mundo de 1970, que aconteceu em Londres. A escolha do ano é relevante por muitos motivos.

A primeira e mais óbvia é porque o filme é inspirado em fatos que aconteceram nesse evento. Mas, para além disso, mais dois acontecimentos marcaram esse concurso. Tivemos a invasão do grupo de feministas e a vitória de Jennifer Hosten (Gugu Mbatha-Raw), a Miss Granada. Ela foi a primeira mulher negra a ganhar o concurso de Miss Mundo.

Os anos 1970 também são o palco da segunda onda do feminismo e, por isso, toda a trama se une de uma maneira bem única. A escolha do tema é, sem dúvida nenhuma, interessante. Fica claro que o longa parte de uma boa iniciativa, mas existem alguns problemas.

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A questão feminista em Misbehaviour

Misbehaviour vem na onda dos filmes feministas que acompanham a atual quarta onda do feminismo, e isso é ótimo. É muito bom poder ter acesso à história do feminismo e da luta pelos direitos iguais. Ainda mais que o público, de uma forma geral, possa aprender mais sobre isso.

O filme, no entanto, peca em alguns aspectos. A trama começa com um grupo de mulheres que deseja ter direitos iguais e que quer interromper o concurso de Miss Mundo daquele ano, pois acredita que o evento objetifica mulheres e cria padrões inalcançáveis. Misbehaviour faz um trabalho relativamente cuidadoso na criação dessas mulheres, que são inspiradas em pessoas reais. O filme nos entrega mulheres diferentes, que fogem do estereótipo da feminista nervosa que odeia homens.

Misbehaviour ignora alguns conceitos básicos do feminismo
Misbehaviour ignora alguns conceitos básicos do feminismo

Quem são elas?

Sally, a protagonista, é uma mulher delicada, dedicada ao marido (John Heffernan) e à filha, que deseja poder estudar e ter os mesmos direitos que os homens. Já Jo Robinson (Jessie Buckley) é mais radical. Duas outras mulheres fazem parte do grupo principal, mas não ganham quase nenhum destaque, o que é um problema em um filme feminista.

Outro problema é que Jo, que é a feminista mais radical do grupo, não aceita Sally e sempre desconfia dela, justamente porque ela tem uma vida diferente da dela. Isso,mais uma vez, fere questões muito básicas do feminismo, como a sororidade.

A grande questão é justamente a invasão ao concurso. Os motivos alegados pelo grupo de mulheres têm fundos de verdade, e a instituição do concurso que é retratado no filme ajuda a calcificar essa sensação, mas o movimento feminista também acredita que as mulheres têm direito de serem o que quiserem, inclusive misses.

O longa Misbehaviour também fala das misses
O longa também fala das misses

Filme datado

O filme mostra um pouco dos bastidores do concurso e dá bastante destaque a Jennifer, a Miss Granada e Pearl Jansen (Loreece Harrison), a Miss África do Sul, que também é negra. Mas, ao mesmo tempo, ignora a vida dessas mulheres e não se aprofunda nos motivos pelos quais elas estariam concorrendo. Se a ideia era deixar claro que as mulheres que participam de concursos de beleza são, obrigatoriamente, influenciadas pela sociedade patriarcal – o que não é completamente verdade – seria interessante destacar essa questão nas histórias pessoais de cada miss.

Dá para entender que o filme se passa nos anos 1970 e que o movimento feminista evoluiu e mudou muitas de suas ideias. Todo movimento, quando surge, é mais radical e, parece natural que, quando se quer adquirir direitos básicos, a tendência é ir contra tudo que já está presente na sociedade. Entretanto, uma vez que o filme é do século XXI, ele se tornaria muito mais relevante se falasse do passado ao mesmo tempo que fala dos dias de hoje.

Por isso as ressalvas…

A Miss Granada até deixa claro o quanto se sente orgulhosa por ser a primeira Miss Mundo negra – o que é uma grande conquista para o movimento de igualdade racial – e que uma série de meninas negras vão olhar para ela e pensar que elas também podem ser o que quiserem, o que também é feminismo, mas isso fica meio jogado no filme.

Sally Alexander
Sally Alexander

A grande questão de Misbehaviour é que, embora parta de uma boa ideia e tenha ideais feministas por trás da produção, o filme soa um pouco datado, como se ele tivesse sido feito mesmo nos anos 1970, quando ainda se acreditava que para ser feminista era preciso renegar a feminilidade. Em pleno ano de 2020, a mensagem do filme poderia abranger o feminismo dos dias de hoje. Poderia deixar claro que o feminismo luta por e aceita as mulheres que não querem ser miss, mas também as que querem.

Aspectos técnicos de Misbehaviour

Misbehaviour é um filme que retrata uma situação real, que aconteceu na década de 1970, por isso, o longa precisa se preocupar não só com o figurino e a ambientação, mas também com a semelhança dos personagens com as pessoas reais.

No final do filme somos apresentados às pessoas que, de fato, viveram essas histórias. Dessa forma, fica claro que os atores escalados não são exatamente parecidos, mas estão relativamente bem caracterizados. Jessie Buckley é bem parecida com a mulher que interpreta e Greg Kinnear, que interpreta o comediante Bob Hope, usa uma prótese no nariz para ficar mais parecido com o verdadeiro.

Misbehaviour foge de estereótipos
Misbehaviour foge de estereótipos

A semelhança aqui não é um grande problema, uma vez que mesmo o filme sendo baseado em fatos, as pessoas retratadas não são tão conhecidas. Assim, é fácil para o público acreditar que aqueles atores são as pessoas.

E o que mais?

Outro ponto interessante é que as mulheres que vão sabotar o concurso quase não usam maquiagem, nem mesmo Keira Knightley que é a estrela do filme. Em contrapartida, as misses estão sempre impecavelmente maquiadas e penteadas.

O filme se passa na década de 1970 e os figurinos remetem a essa época, mas ainda poderiam ser roupas dos dias de hoje. Isso aproximaria a audiência das personagens, mas não combinaria muito com a trama do filme, que parece travada dos anos 1970.

O figurino de Misbehaviour remete aos anos 1970, mas não é totalmente característico
O figurino remete aos anos 1970, mas não é totalmente característico

O filme dá mais destaque às personagens de Knightley, de Mbatha-Raw e de Buckley. As atrizes se saem bem, mas o filme se aprofunda pouco nelas e foca mais na ação. Mbatha-Raw entrega uma personagem de quem o público gosta e simpatiza.

Misbehaviour retrata um fato real e tem como obrigação mostrar isso de maneira realista, mas quando fica muito focado na década de 1970, acaba perdendo aspectos dos anos atuais, o que tornaria o filme ainda mais interessante.

Misbehaviour

Nome Original: Misbehaviour
Direção: Philippa Lowthorpe
Elenco: Keira Knightley, Jessie Buckley, Gugu Mbatha-Raw, Rhys Ifans, Keeley Hawes
Gênero: Drama
Produtora: Left Bank Pictures, Pathé
Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures
Ano de Lançamento: 2020
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