Natal Sangrento – Bem intencionado no discurso, mas…

Filme abre mão do que torna um slasher algo especial: as mortes e o sangue

Esta é uma obra que delineia um momento específico de nossa história, em tempos de #MeToo. As manifestações críticas femininas são recebidas com resistência por homens que ainda não aceitam determinados locais de fala de uma esfera social que há eras teve seus discursos sublimados pela misoginia ainda existente na contemporaneidade, mas enfrentada por muitas mulheres que assumem os riscos ao adentrar neste campo de batalha acirrado. É nesse contexto que a diretora Sophia Takal pega o clássico de 1974 (que já havia ganhado um reboot em 2006) e o ressignifica em Natal Sangrento.

O original canadense se baseava numa série de assassinatos que ocorreram em Quebec durante o Natal e cria uma obra de autonomia feminina, segundo a visão daquele período. Essa nova versão empresta a premissa para realizar algo novo e pouco sutil. Coloca então alguns homens como vilões pertencentes a uma seita misógina dentro de um campus que, nessa época festiva do ano, acaba se esvaziando e assim algumas mortes de mulheres ocorrem.

Natal Sangrento

Natal Sangrento

Os elogios começam e terminam entre o primeiro e o segundo ato, que são ótimos, remetendo muito aos bons slashers do final dos anos 1990, derivados do sucesso de ”Pânico”, com todos os tropos usados e reutilizados do jeito que o público do gênero gosta. Takal sabe construir suspense, com expectativas bem montadas antes da próxima tragédia. Junto da co-roteirista April Wolfe, ela embute discursos ativistas e feministas na boca de uma personagem. Enquanto isso, deixa para as outras três um equilíbrio que evidencia os vários aspectos do feminino nos contextos de abuso, mesmo que, de fato, a temática seja aqui trabalhada de maneira rasa.

O quarteto protagonista é realmente cativante (incluindo até algumas coadjuvantes com pouco tempo de tela), principalmente Imogen Poots, que consegue entregar uma moça simpática, mas quebrada por dentro, após passar por uma história de abuso. Lily Donoghue é uma fofura e Aleyse Shannon faz o que pode com duas pedras para atacar na cabeça de alguém a qualquer momento.

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A queda

Mas a produção não sobrevive ao terceiro ato, quando revela a verdadeira identidade do assassino, que não só já era óbvia desde o começo, como também pela sequência mal montada que assume a partir dali, em um clímax que pretendia ser catártico, mas é apenas insosso. Outro ponto que derruba muito a obra é a censura nas mortes. Quando o assassino vai atacar, a câmera corta. Ou quando alguém acaba de levar uma facada ou flechada, a câmera gira e muda a direção. É completamente frustrante e inaceitável.

Segundo Takal, o motivo para não conter cenas de violência explícita foi atrair garotas jovens ao cinema e lhes apresentar uma história de mulheres fortes. A intenção é boa, mas a desculpa não cola. Slasher é slasher justamente por isso. Assim, quando você tira o sangue, o que sobra é pouco mais do que nada.

Natal Sangrento

Nome Original: Black Christmas
Direção: Sophia Takal
Elenco: Imogen Poots, Aleyse Shannon, Lily Donoghue
Gênero: Horror, Mistério, Thriller
Produtora: Blumhouse Productions
Distribuidora: Universal Pictures
Ano de Lançamento: 2019
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