Nó do Diabo, um relato cruel sobre um caso real

Nó do Diabo, de Mara Leveritt é o livro que acompanha um crime e sua investigação. Assim como suas incoerências e o que aconteceu em sequência.

No dia 5 de maio de 1993, três garotos de oito anos – Stevie BranchMichael MooreChristopher Byers – foram dados como desaparecidos, em West Memphis, no Arkansas. O pai adotivo de Byers, John Mark Byers foi o primeiro a informar a polícia do sumiço.

A polícia fez uma busca em Robin Hood Hills, onde supostamente os meninos tinham sido vistos pela última vez. Mas não encontrou nada. No dia seguinte, no entanto, um dos policiais viu um tênis de criança boiando em um pequeno rio que desaguava em um rio maior. Lá os corpos dos meninos foram encontrados.

Da esquerda para a direita, Christopher Byers, Michael Moore e Stevie Branch
Da esquerda para a direita, Christopher Byers, Michael Moore e Stevie Branch

A pequena cidade de West Memphis então, entrou em desespero

A polícia começou uma investigação descuidada que os levaria para os caminhos mais errados possíveis. O boato que corria na cidade então, é que três adolescentes, Damien Echols, Jessie Misskelley Jr. e Jason Baldwin eram os responsáveis pelo crime. E não demorou muito para que a polícia chegasse a eles.

Embora não existisse nenhuma evidência física contra os três, eles foram levados para prestar um longo depoimento, sem qualquer supervisão de um adulto. O único que era maior de idade era Jessie. Ele acabou confessando ter testemunhado Echols e Baldwin assassinarem os três garotos.

Da esquerda para a direita, Jessie Misskelley Jr., Damien Echols e Jason Baldwin
Da esquerda para a direita, Jessie Misskelley Jr., Damien Echols e Jason Baldwin

O crime

O assassinato de Stevie Branch, Michael Moore e Christopher Byers é o ponto de partida para o livro Nó do Diabo, de Leveritt. Só que tudo nesse caso é muito sinistro e bizarro, o que o torna ainda mais interessante.

Os três garotos desapareceram no dia 5 de maio e foram vistos, pela última vez, brincando em Robin Hood Hills. Os corpos encontrados no dia seguinte estavam dentro do rio. Os meninos estavam nus e tinham os pulsos amarrados aos tornozelos com os cadarços de seus próprios tênis. As roupas dos meninos foram encontradas ali perto, viradas do avesso. E as cuecas de dois deles nunca foram encontradas. Além disso, os corpos estavam machucados. Branch tinha marcas de mordidas na testa e Byers tinha sido castrado. Teorias posteriores dizem que isso pode ter sido resultado de ataques de animais ocorridos depois da morte.

Inicialmente, a polícia suspeitou que os meninos tivessem sido estuprados. Mas testes feitos depois provaram que isso não aconteceu. Embora tenham encontrado resquícios de esperma em uma calça encontrada no local do crime. Os exames posteriores também provaram que Byers tinha ritalina no organismo, o que seria normal, uma vez que o garoto de fato usava medicação para tratar um transtorno de hiperatividade. Embora o pai adotivo dele diga que é muito provável que Byers não tenha tomado seu remédio naquele dia.

Echols, Baldwin e Misskelley atualmente

Caça às bruxas

O fato do crime ter sido extremamente cruel já deixou todos em alarme. Somado a isso, existe a aparência de que o crime era na verdade ritualístico, o que causou um rebuliço ainda maior na cidade. West Memphis é uma cidade pequena no Arkansas, que faz parte do cinturão da bíblia. Cinturão da bíblia é o nome dado a uma parte dos Estados Unidos onde a prática da religião protestante faz parte da cultura local. Em adição a isso, essa região é especialmente conservadora.

Um crime tão sinistro contra crianças, com insinuações sexuais, e que poderia ser fruto de algum ritual foi o estopim para uma onda de pânico em uma região tão atrasada quanto aquela. A população da cidade, assim como a família dos garotos, especialmente John Mark Byers, pai adotivo de Christopher, começou a pressionar a polícia para que o crime tivesse uma solução e para que a cidade pudesse voltar a viver em segurança.

Ao mesmo tempo, existia uma pessoa na cidade que se destacava por diversos motivos negativos. Damien Echols era um adolescente de 18 anos que andava sempre de preto. Ele tinha interesse pelo oculto, gostava de livros de terror e de heavy metal. Em outras palavras, Damien era um adolescente como qualquer outro, que ainda estava procurando sua identidade. Mas o fato dele ser diferente foi o suficiente para que passasse a ser citado como o principal suspeito do caso.

Echols durante o julgamento
Echols durante o julgamento

Nó do Diabo

Não é exagero dizer que o que aconteceu em West Memphis foi uma verdadeira caça às bruxas. A polícia, desesperada para mostrar competência, não se ateve às provas físicas que poderiam surgir da investigação. Ela tentou colocar Damien e os seus amigos no cenário do crime. Isso porque a partir do momento em que ele começou a ser citado pelos moradores, ele se tornou de maneira automática, o culpado.

Damien era de fato, um cara esquisito. Ele tinha interesse pelo oculto e o fato de ser um tanto quanto prepotente não ajudava em nada a melhorar a sua fama na cidade. Mas não existe qualquer comprovação de que ele tenha alguma vez participado de algum ritual satânico, como foi alegado na época. Aliás, a ideia de que ele e os amigos teriam assassinado os meninos inspirados pelas músicas de heavy metal que escutavam, que muitas vezes tratam de temas obscuros, beira o absurdo para qualquer pessoa que não vive em uma cidadezinha conservadora e extremamente religiosa no interior dos Estados Unidos.

Casos como esse mostram o quanto a justiça (nesse caso, a americana) é falha, embora tenhamos a tendência a acreditar que não. A justiça é feita por pessoas que não são completamente imparciais e muitas vezes, isso se mistura a interesses pessoais.

John Mark Byers, pai adotivo de Christopher em cena de Paradise Lost
John Mark Byers, pai adotivo de Christopher em cena de Paradise Lost

O terror

A ideia de que você pode ser preso e condenado apenas por ser quem você é, é igualmente assustadora. Afinal, quantos de nós não fomos como Damien na adolescência? Então, depois de 12 horas de interrogatório, Jessie Misskelley Jr. confessou ter presenciado Damien Echols e Jason Baldwin assassinarem Stevie Branch, Michael Moore e Christopher Byers como parte de um ritual.

Jessie Misskelley Jr. foi condenado à prisão perpétua e a mais duas sentenças de 20 anos. Jason Baldwin foi sentenciado à prisão perpétua. Já Damien Echols foi sentenciado à morte, em um julgamento que já estava decidido desde o seus primeiros dias.

Terry e Pamela Hobbs

A hipocrisia do moralismo

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu entre o desaparecimento dos meninos e o momento em que seus corpos foram encontrados. Assim como também não se sabe quem foi o culpado (ou culpados). Mas é natural que se perceba o quanto o crime é cruel, com requintes de sadismo.

Quando os corpos foram encontrados, a população não demorou para apontar Damien e seus amigos como os culpados pelo crime. Apenas porque eles e, mais especificamente Damien, eram párias na cidade. Nos dias de hoje, depois de diversas investigações e julgamentos, sabe-se que essa possibilidade é muito pequena. Afinal, não foi encontrado o DNA de nenhum deles na cena do crime ou no corpo dos meninos. Além disso, as mordidas na testa de Branch não correspondiam a de nenhum dos suspeitos. Mas o fato é que alguém cometeu o crime.

O caso dos três de West Memphis também traz à tona a hipocrisia que ronda o moralismo. Afinal, a pessoa que cometeu o crime provavelmente faz parte da comunidade. Assim, não levanta suspeitas pois se encaixa no lugar e consegue se passar por uma pessoa decente. É impossível negar que embora a cidade seja extremamente conservadora e religiosa e pregue os valores que estão na bíblia de maneira quase fanática, alguém naquela cidade sente impulsos tão cruéis que podem facilmente ser confundidos com um ritual satânico.

Misskelley durante o julgamento
Misskelley durante o julgamento

É curioso pensar…

Que uma comunidade que reprime tanto os seus moradores, a ponto de achar que adolescentes que escutam heavy metal seriam automaticamente capazes de torturar, castrar e assassinar crianças, possa produzir uma pessoa que de fato é capaz de todas essas coisas.

Isso sem falar no resto dos moradores que pregam a palavra de Deus. Mas que não pensaram duas vezes antes de apontar Damien e os amigos, apenas porque eles eram diferentes.

Resultado

O caso dos três de West Memphis ganhou certa notoriedade depois do lançamento da série de documentários Paradise Lost. Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills (1996), Paradise Lost 2: Revelations (2000), e Paradise Lost 3: Purgatory(2011) foram produzidos pela HBO e acompanham o crime, a investigação e os julgamentos posteriores. Foi então que Echols, Misskelley e Baldwin ganharam o apoio de diversos famosos. Entre eles Eddie Vedder, Flea e Iggy Pop, o que fez com que a polícia reabrisse o caso.

Alessandro Nivola e Reese Witherspoon como Terry e Pamela Hobbs no filme Sem Evidências
Alessandro Nivola e Reese Witherspoon como Terry e Pamela Hobbs no filme Sem Evidências

Nos anos seguintes foram destacados diversos fatos que inocentavam os três adolescentes. Entre eles o fato de que a polícia não guardou provas importantes de maneira adequada; que muitos detalhes do crime, como as mordidas na testa de Branch, sequer foram mencionadas na autópsia; e que Misskelley, que tem um QI abaixo do normal, foi intimidado e praticamente induzido a confessar pela polícia.

A polícia também não relacionou o aparecimento de um homem negro, que parecia fora de si e coberto de sangue, em um restaurante local, no dia 5 de maio, com o assassinato. O homem se esfregou contra a parede do banheiro feminino, em uma tentativa de tirar o sangue de si mesmo. E pareceu ignorar o fato de que outros dois adolescentes, Chris Morgan e Brian Holland, os dois com condenações relacionadas a drogas, simplesmente desapareceram de West Memphis quatro dias depois que os corpos foram encontrados. Quando interrogados mais tarde, Morgan disse que devido ao uso de drogas e álcool, ele costumava ter lapsos de memória e que ele “poderia ter matado” os meninos. Mas logo depois ele retirou isso do seu depoimento.

Ron Lax (Colin Firth) conversa com Damien Echols (James Hamrick) em cena de Sem Evidências
Ron Lax (Colin Firth) conversa com Damien Echols (James Hamrick) em cena de Sem Evidências

Outras evidências também surgiram ao longo dos anos

O pai adotivo de Byers deu uma faca de caça a um cinegrafista que filmava Paradise Lost. Ela continha sangue cujo código genético combinava tanto com o do pai adotivo, quanto com o do menino Byers. O que no final ainda revelou a possibilidade do menino ser filho legítimo e, portanto, fruto de uma traição da mãe com o futuro pai adotivo.

O homem também admitiu ter espancado o menino um dia antes do desaparecimento, pois o menino estava muito eufórico. A mãe de Stevie Branch, Pamela Hobbs, também contou à polícia que encontrou uma faca que pertencia ao filho e que ele levava sempre com ele, entre as coisas de seu marido (e padrasto de Stevie), Terry Hobbs. Mais tarde seria encontrado um fio de cabelo em um dos cadarços que tinham sido usados para amarrar um dos meninos, que correspondia ao DNA de Hobbs.

Cultura pop

Além da série de documentários produzidos pela HBO e do livro Nó do Diabo, o caso também foi tema para os livros Blood of Innocents, de Guy Reel e The Last Pentacle of the Sun: Writings in Support of the West Memphis Three, uma antologia que contava com textos ficcionais e especulativos sobre o caso. O pai adotivo de Byers, John Mark Byers também ganhou sua própria biografia, em 2012, escrita por Greg Day. E Damien Echols deu sua própria versão dos fatos no seu livro Vida Após a Morte.

Dois álbuns foram escritos inspirados no caso: Free the West Memphis 3, da banda Supersuckers com participação de Tom Waits e Joe Strummer, entre outros; e Rise Above: 24 Black Flag Songs to Benefit the West Memphis Three, que é um compilado de músicas de diversos artistas. Todos os lucros dos discos foram doados para a defesa dos três de West Memphis. A banda Zao’s escreveu uma música sobre o caso, chamada Free The Three e a banda Disturbed escreveu uma música que chama apenas 3.

Kristopher Higgins, James Hamrick e Seth Meriwether como Misskelley, Echols e Baldwin no filme Sem Evidências
Kristopher Higgins, James Hamrick e Seth Meriwether como Misskelley, Echols e Baldwin no filme Sem Evidências

O caso também foi tema de um episódio de Crimes Famosos com Aphrodite Jones (exibido aqui no Brasil pelo Investigation Discovery), em 2011. Em 2012, o caso virou tema de outro documentário, A Oeste de Memphis, dirigido por Amy J. Berg.Nó do Diabo foi adaptado para o cinema em 2014, com o nome de Sem Evidências. O filme tem no elenco Colin Firth, Dane Dehaan (que interpreta Chris Morgan) e Reese Whiterspoon (que interpreta a mãe de Stevie Branch, Pamela Hobbs).

Nó do Diabo é um livro que relata um crime cruel e terrível. Mas que, acima de tudo, fala muito sobre o preconceito, a hipocrisia presente na sociedade e as falhas da justiça.

Leia mais: séries sobre crimes reais

Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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