Livros

O Bebê de Rosemary, de Ira Levin

Um clássico do terror

Rosemary Woodhouse e seu marido Guy, um ator que luta para se firmar na carreira, mudam-se para um dos endereços mais disputados de Nova York, o Bramford, um edifício antigo de ares vitorianos, habitado em sua maioria por moradores idosos e célebre por uma reputação algo macabra de incidentes misteriosos ao longo da história. Sem demora, os novos vizinhos, Roman e Minnie Castevet, vêm dar boas-vindas aos Woodhouse. Apesar das reservas de Rosemary com relação a seus hábitos excêntricos e aos barulhos estranhos que ouve à noite, o casal idoso logo passa a ser uma presença constante em suas vidas, especialmente na de Guy. Tudo parece ir de vento em popa. Guy consegue um ótimo papel na Broadway, e novas oportunidades não param de surgir par a ele. Rosemary engravida, e os Castevets passam a tratá-la com atenção especial. Mas, à medida que a gestação evolui e parece deixá-la mais frágil, Rosemary começa a suspeitar que as coisas não são o que parecem ser… Em 1969, O bebê de Rosemary, fenômeno aclamado por público e crítica, foi adaptado para o cinema em uma produção que se tornou um clássico do terror, estrelada por Mia Farrow. Em 2014, a força da história sinistra de Rosemary e seu bebê chegou à TV americana, em uma elogiada minissérie estrelada por Zoe Saldana.

Fonte: Amazon

É impossível falar de o Bebê de Rosemary sem lembrar do filme de 1969, mesmo porque eu conheci primeiro o filme do que o livro.

O livro foi escrito por Ira Levin (Os Meninos do Brasil e Stepford Wives), em 1967. Ele conta a história de um jovem casal que está em busca de um apartamento para morar. Rosemary e Guy, o casal em questão vão morar em um apartamento chique de Nova York, onde grande parte dos vizinhos é composto por casais idosos. Um desses casais, Minnie e Roman Castevet, se tornam muito próximos de Rosemary e Guy e embora no começo, nenhum dos dois goste muito dos Castevet e apenas os tolerem, Guy logo acaba virando um grande amigo do casal, mesmo que Rosemary não fique tão entusiasmada com isso.

Logo depois, tudo começa rapidamente a dar certo para o jovem casal: Guy, que é ator consegue finalmente um papel na Broadway, porque o ator escolhido anteriormente ficou cego misteriosamente e então, Rosemary engravida.

Quando isso acontece, os Castevet, então passam a cuidar de Rosemary como se ela fosse filha deles: marcam consultas para ela com um médico que cobra preços exorbitantes, cuidam dos exames dela e até preparam remédios caseiros para ela beber. Mesmo com todo esse cuidado, Rosemary não se sente nada bem e acha que cada vez está mais fraca, como se o bebê estivesse sugando toda a sua vida, ela sente dores na barriga, emagrece, fica com olheiras e desenvolve um estranho apetite por carne crua.

Talvez o grande mistério do livro (e do filme) já esteja disseminado no imaginário popular e o livro não seja uma grande surpresa quanto foi nos anos 60, mas O Bebê de Rosemary ainda é impactante.

Primeiro de tudo, a história é muito criativa. Como toda obra que já é um pouco antiga, o Bebê de Rosemary já serviu de inspiração para milhares de outras obras posteriores,  por isso pode parecer repetitivo, mas na verdade é exatamente o contrario. Além de ser criativo, o livro é todo muito bem amarrado, o leitor termina de ler com a sensação de que não ficou uma ponta solta, tudo faz sentido dentro da história. E Levin sabe exatamente aonde colocar cada pista e descoberta, para manter o leitor interessado e fazer com que ele vá descobrindo tudo junto com Rosemary.

O fato da protagonista ser Rosemary também deixa o livro muito interessante. É ótimo ver uma protagonista feminina escrita nos anos 60. Embora Rosemary pareça uma típica dona de casa, durante o livro, ela se mostra muito inteligente e forte, claro que tudo que acontece com ela ao longo da história faz com que a gente sinta dó dela, mas ela reverte muitas das situações de uma maneira esperta e existe uma sensação de satisfação quando ela finalmente percebe o que está acontecendo.

Outro ponto interessante é a escolha dos vilões do livro, é obvio que existe uma criatura muito maior por trás de tudo que está acontecendo, mas os personagens que são mais próximos e estão dispostos a fazerem tudo para conquistar seus objetivos são os que ficam na história e na nossa cabeça por mais tempo. O autor faz o leitor questionar se nós podemos de fato, confiar em pessoas que estão perto de nós. Não só os vilões dessa história estão muito próximos de Rosemary, mas como eles também não tem a aparência de malvados, muito pelo contrario, eles tem a aparência de frágeis e fofinhos, tornando todo o livro mais sinistro ainda.

Aliais, o clima do livro todo é sinistro, principalmente porque durante a história nós, assim como Rosemary vemos poucas coisas, embora fique bem claro que tem alguma coisa bem macabra acontecendo no prédio. O leitor é sugestionado a muitos dos acontecimentos do livro, então, nós lemos sobre sombras, cânticos bizarros durante a noite e a atitudes extramente estranhas de praticamente todos os moradores do edifício, embora seja possível desconfiar (ou até saber) de qual seja o grande mistério da história, o leitor fica no escuro boa parte do livro, assim como a própria Rosemary.

Outra coisa que faz o Bebê de Rosemary uma leitura imperdível é a escolha do tema do livro. Ira Levin pegou um momento que deveria ser alegra na vida de um casal (e nos anos 60, mais especificamente, na vida de uma mulher), que é a gravidez do primeiro filho e transformou em uma coisa tão assustadora, assombrosa, dolorida e agoniante que se tornou digno não só de um livro, mas também de um filme e uma minissérie de terror. E embora existam pontos negativos e difíceis em uma gravidez (e algumas gravidezes sejam mais complicadas que outras), certamente ninguém nunca falou desse período da maneira que Levin fez nesse livro.

Não existe nada mais assustador do que uma situação cotidiana levada ao limite do absurdo e é exatamente isso que acontece em O Bebê de Rosemary.

O Bebê de Rosemary foi adaptado duas vezes, em 1969, para o cinema e em 2014, para a televisão. A versão televisava não é muito famosa e não é tão boa quanto a versão para o cinema.

O filme de 1969, foi dirigido por Roman Polanski, e é extramente fiel ao livro, o próprio autor do livro disse em entrevistas posteriores que se surpreendeu com o fato de pouco do livro ter sido alterado e é por isso mesmo, que o filme é tão bom quanto o livro. Além disso, o filme tem exatamente o mesmo clima do livro, como se alguma coisa terrível pudesse acontecer a cada minuto, talvez porque o filme tenha sido rodado no sinistro Edifício Dakota, e se o prédio do livro é rodeado de mistérios, ao longo dos anos, o Dakota teve o mesmo destino: só para se ter uma idéia, o Dakota era o prédio onde John Lennon morava quando foi assassinado, o que quer dizer que, o ex Beatle foi baleado na porta do edifício.

Outra tragédia relacionada, não diretamente ao filme, mas ao diretor Polanski, é o assassinato da sua então, esposa, Sharon Tate, na época grávida de 8 meses pela Família Manson. A Família Manson era liderada por Charles Manson, que dizia que a música Helter Skelter, dos Beatles, falava sobre uma guerra entre brancos e negros e que os assassinatos deveriam ser cometidos para que os negros levassem a culpa.

Assim como o livro, todas as histórias relacionadas a gravação do filme parecem se unir e se completar de alguma maneira bem sinistra e que ninguém sabe explicar muito bem.

O filme também tem Mia Farrow, no papel icônico de Rosemary que imortalizou para sempre o corte de cabelo Joãozinho e o figurino do filme também é bem interessante e represente muito bem o período em que o filme se passa. Talvez porque o filme foi gravado nos anos 60, o figurino não tem aquele ar de fantasia que muitos figurinos de filmes atuais tem, tornando tudo ainda mais realista e o filme todo tem um estilo que é impossível desassociar do período em que ele foi gravado.

O Bebê de Rosemary ainda rendeu uma continuação, escrita pelo próprio Ira Levin em 1998, com o nome de O Filho de Rosemary, que não chega nem aos pés do livro original e que caso você tenha lido O Bebê de Rosemary e gostado, eu recomendo que você ignore o segundo livro.

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Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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3 thoughts on “O Bebê de Rosemary, de Ira Levin”

  1. Muito bom! Também vi o filme algumas vezes antes de ler o livro. É impressionante como algumas adaptações são tão perfeitas! O Bebê de Rosemary, O Inquilino, Carrie, são filmes que conseguiram ficar na minha memória e me deixar pasma com suas adaptações. E concordo com você, a continuação (O Filho de Rosemary) é uma porcaria!

  2. Assisti o filme há muito tempo e me lembro de detalhes até hoje, de tão impressionante que foi a história e o clima de suspense.

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