O Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin

O Feiticeiro de Terramar é um clássico da fantasia. Subverte o gênero de maneira discreta e entrega uma aventura de formação bastante formidável, surpreendendo mesmo nos dias de hoje.

Fico feliz que esta tenha sido minha primeira leitura da grande Ursula. Considerando que tenho mais apreço pela fantasia do que pela ficção científica, e de encontrar na trama de Ged algo muito inventivo, que não só inspirou dois dos meus autores prediletos – Neil Gaimen e Joe Abercrombie – como também serviu de molde para o medíocre O Nome do Vento, que faz uso da mesma base (conhecer o nome das coisas dá poder sobre elas).

Os trunfos da autora são vários e dá para se enumerar alguns. A começar pela escrita elegante e simples, que facilita a leitura sem enfeites ou delírios tão comuns na literatura contemporânea. Coisa que Patrick Rothfuss foi incapaz de aprender.

A estrutura de O Feiticeiro de Terramar

Cada um dos 10 capítulos são estruturados em uma forma que mais lembra o conto. Pela concisão, por pular passagens desnecessárias e por ir direto ao ponto. Mas escolhendo palavras que mantém o consumo do enredo agradável, montando frases saborosas de se ler, que a tradutora Ana Resende conseguiu captar integralmente. Dessa maneira, a leitura do livro é ágil e agradável. Escondendo várias surpresas pelo caminho e surpreendendo no desfecho. Mesmo que eu, particularmente, já tenha matado a charada sobre o nome da Sombra uns cinco capítulos atrás.

Ainda lá em 1968, quando não existiam muitos parâmetros como hoje temos em excesso (o mais famoso, até então, era O Senhor dos Anéis, e não se faziam filmes ou franquias de mídia com essas obras), O Feiticeiro de Terramar, sendo um livro encomendado por editor, permitiu a Ursula assumir a responsabilidade de escrever uma fantasia com seu DNA.

Ged, o protagonista

Então ela coloca um protagonista pardo, mesmo com as limitações da época, onde os protagonistas homens eram grandes conquistadores. No belo posfácio, a autora explica que gostaria de ter dado passos mais largos, mas os grilhões eram mais fortes na ocasião. Por isso num primeiro passo contra a corrente, além de Ged, ela também estabelece seu melhor amigo como negro e a maior parte do Arquipélago dominado por pardos e negros. Deixando os brancos apenas para os nortistas, inclusive alguns seres vis (e essa transformação fora dos clichês do gênero, ela foi conquistando nos livros futuros).

Mas há outros grandes momentos na história, que também, ao fugirem do lugar-comum, são certeiros. A jornada de Ged é basicamente de autoconhecimento, mas isso não cai em um discurso de auto-ajuda. Tendo inspirações maiores nos taoistas – sobre um equilíbrio essencial no universo de Terramar, o qual magos devem manter, que está intimamente ligado à ideia de que linguagem e nomes possuem o poder de afetar o mundo material e alterar seu equilíbrio. Mas de uma aventura escapista bastante autêntica, com um protagonista que começa orgulhoso e arrogante, e depois se torna humilde quando comete um grande erro. Este que primeiramente será perigoso para si mesmo, levando-o a viajar o mundo, de ilha em ilha, cada qual com sua cultura, dialeto e costumes, alguns trazendo pequenas quests que ajudam no estofo do enredo e acrescentam na trama maior.

Vale a pena ler?

Com passagens bastante interessantes, de duelos com dragões a traições na neve, passando por situações mais intimistas sob a lareira, até longevas viagens de barco pelo mar aberto (que se escorrega em certo excesso pedante lá no capítulo 8, mas logo recupera o fôlego).

A edição da Arqueiro é bela e simples, dentro do que se propõe, entregando um livro barato, portanto bastante acessível. A capa belíssima de Ursula Dorada impacta ao revelar uma cena do miolo. Por fim, não existem erros de revisão, em uma edição que vale a pena constar em qualquer estante.

Com uma história mais focada em seu personagem principal, utilizando os demais apenas como suporte nesse primeiro momento, O Feiticeiro de Terramar consegue ser uma maravilhosa porta de entrada para quem quer descobrir uma fantasia de primeira qualidade. Em uma trama fechadinha, com tom de fábula, repleta de sombras, mistérios e uma luz no fim do túnel. E que pode ensinar novos autores que menos é mais e que um enredo enxuto, mas rico de worldbuilding e carisma, funciona muito melhor do que um colosso que não tem nada a dizer.

O Feiticeiro de Terramar e Ursula Le Guin foram amor à primeira vista. Eu cheguei tarde, mas agora que estou aqui, não vou partir nunca mais.

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O Feiticeiro de Terramar

Nome Original: O Feiticeiro de Terramar
Autor: Ursula Le Guin
Editora: Arqueiro
Gênero: Fantasia
Ano: 1968
Número de Páginas: 205
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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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