Uma Mulher é Uma Mulher, musical de Godard

Em Uma Mulher é Uma Mulher, Angela (Anna Karina) é uma dançarina de cabaret que quer ter um filho. No entanto, esse não é o desejo de Émile (Jean-Claude Brialy), seu namorado. Angela, então, recorre a Alfred (Jean-Paul Belmondo) e pede que ele a engravide. A partir daí, diversas situações acontecem e Angela não tem mais certeza de suas escolhas.

Uma homenagem ao cinema musical

Uma Mulher é Uma Mulher é o terceiro filme de Jean-Luc Godard, embora ele tenha sido lançando antes de O Pequeno Soldado, que foi censurado. Ele também faz parte da Nouvelle Vague, o movimento de cinema francês que visava ser diferente do cinema americano.

Angela se vê dividida entre Émile e Alfred
Angela se vê dividida entre Émile e Alfred

Apesar disso, Uma Mulher é Uma Mulher é um dos filmes da Nouvelle Vague que está mais próximo do cinema comercial americano. Boa parte disso se deve ao fato de que Godard, na verdade, quer prestar uma homenagem ao cinema musical.

Naturalmente, o longa não é um musical típico de Hollywood, com grandes coreografias e figurinos exuberantes. Mas também não é um filme francês típico. Os atores tem poucas cenas cantadas e algumas delas são encenadas no palco do cabaret onde Angela trabalha. Então não existe nenhuma coreografia e a maioria dos números musicais se desenvolvem mais ou menos como falas.

Referências

Outra coisa que aparece no filme são as referências a outras obras, uma técnica que se tornaria comum na filmografia de Godard. Uma das melhores cenas do filme mostra Angela e Émile discutindo através de palavras que estão nas capas de livros. Nesse momento, vemos os mais variados tipos de livros que o casal tem em suas estantes.

Anna Karina em cena do filme Uma Mulher é Uma Mulher
Anna Karina em cena do filme

Godard também faz referências aos filmes e aos colegas da Nouvelle Vague. Ele menciona François Truffaut, outro diretor chave do movimento, Charles Aznavour que estrelou Atirem no Pianista, filme de Truffaut, e até ele mesmo, quando coloca o personagem de Belmondo falando que quer voltar logo para casa para assistir Acossado, filme dirigido por Godard e estrelado pelo próprio Belmondo, na televisão.

Tudo em Uma Mulher é Uma Mulher é extremamente divertido, sejam as referências, seja a personalidade de seus personagens.

Mudanças de comportamento

Por outro lado, Uma Mulher é Uma Mulher ainda é um filme típico da Nouvelle Vague, isso porque sua história conversa muito com os outros filmes do movimento.

Angela quer ter um filho, mas seu namorado não
Angela quer ter um filho, mas seu namorado não

O filme retrata de maneira interessantíssima as mudanças de comportamento que surgiram a partir dos anos 60. É bom lembrar que o filme é de 1961 e fala sobre uma jovem que não é casada, mas que divide o apartamento com o namorado e que decide de livre e espontânea vontade que vai ser mãe solteira.

Para piorar a situação, ela resolve que vai engravidar de outro homem, que não o seu namorado. O tema é extremamente moderno. Na verdade, faz até mais sentido nos dias de hoje. Se ignorássemos os figurinos, poderíamos facilmente acreditar que Angela é uma jovem mulher dos dias de hoje, que quer ser mãe, mesmo que seu namorado não esteja pronto para isso.

Mas tem mais, claro…

É claro que a história do filme não se resume a isso. Depois que toma a decisão de procurar Alfred, Angela começa a se sentir dividida entre Émile e Alfred, em uma situação que é quase clássica dos filmes da Nouvelle Vague. A ideia de três personagens, uma moça e dois rapazes, que vivem um triângulo amoroso, que não se ata nem se desata aparece também em Jules e Jim – Uma Mulher para Dois e Bando à Parte.

Foi reprisada com maestria em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, que faz uma homenagem ao cinema francês dos anos 60 e em Canções de Amor, que bebe muito na fonte de Godard e Truffaut. Essa ideia de amor livre, onde os personagens não precisam decidir definitivamente com quem eles querem ficar, combina muito com a ideia que circulava entre os jovens na década de 60.

Anna Karina rouba a cena em Uma Mulher é Uma Mulher
Anna Karina rouba a cena em Uma Mulher é Uma Mulher

Outro ponto positivo de Uma Mulher é Uma Mulher é que embora o filme se passe em Paris, não existe nada ali que seja especificamente da França. Ou seja, o filme poderia se passar em qualquer grande cidade, como Nova York, Londres ou até São Paulo. A história que o filme narra é uma história quase universal.

Aspectos técnicos de Uma Mulher é Uma Mulher

Esta é uma comédia musical que não tem uma trama extremamente complexa, mas que mesmo assim é divertida e funciona. Boa parte disso se deve ao charme natural do filme, que mostra uma Paris simpática e agradável, onde qualquer um gostaria de viver.

Os personagens que orbitam essa cidade também são adoráveis. Angela é especialmente carismática. Afinal, mesmo que ela cometa as mais diversas trapalhadas do começo ao fim, não conseguimos tirar os olhos dela.

As cores que predominam no filme são azul, vermelho e branco
As cores que predominam no filme são azul, vermelho e branco

Por outro lado, o filme pode soar estranho para quem está acostumado a produções Hollywoodianas. Embora este seja um dos filmes mais palatáveis de Godard, ele já tem alguns aspectos de seus futuros filmes, como personagens que conversam com a câmera e cortes abruptos.

Leia aqui sobre mais musicais

O elenco não canta tantas músicas assim, mas as que canta são divertidas e estão dentro do clima do filme. Entre elas estão Blues Chez le Bougnat, Juke-Box, Le Lampadaire e Chanson d’Angela, que Angela canta em um número no cabaret.

A fotografia é bem clara e alegre, assim como o filme. Outro aspecto que chama a atenção é o figurino, que é especialmente bonito. O casal de protagonistas, Angela e Émile, usa sempre tons de azul, vermelho e branco, as cores da bandeira da França, e que mais tarde também seriam as cores predominantes em dois outros filmes do diretor: O Demônio das Onze Horas e Made in U.S.A. Já Alfred pende mais para os tons terrosos de marrom.

Angela e Émile em Uma Mulher é Uma Mulher
Angela e Émile

As roupas são típicas da década em que o filme se passa e, assim como a trama do filme, refletem o comportamento dos jovens da época.

Uma Mulher é Uma Mulher não teria tanta graça se não fosse o seu elenco

O trio de protagonistas é formado por atores chaves da Nouvelle Vague que atuaram em diversos outros filmes do movimento. No entanto, neste filme, eles encarnam personagens um pouco mais divertidos.

Belmondo ainda interpreta o bad boy, mas está longe da imagem do ladrão de carros de Acossado. Brialy interpreta o namorado bonzinho disposto a perdoar qualquer falha de Angela. Aspecto que mais tarde se tornaria quase típico de comédias românticas. Seu personagem também passa longe do alcoólatra de Nas Garras do Vicio, mas, naturalmente, o filme todo é de Anna Karina.

O filme faz referências a outros filmes e livros
O filme faz referências a outros filmes e livros

É impossível assistir ao filme (ou qualquer outro filme de Godard com ela) e não sair encantado pela atriz. Ela era o rosto do movimento. Boa parte da boa atuação de Karina pode se dever ao fato de que a história é em parte baseada em sua vida. Afinal, antes de se tornar atriz e se casar com Godard, ela foi artista de cabaret.

Uma Mulher é Uma Mulher não é um filme muito conhecido no Brasil, mas ele influenciou filmes como Os Sonhadores e diretores como Christophe Honoré, que presta uma homenagem a Godard não só em Canções de Amor, mas também em Bem-Amadas.

Embora não seja um musical tradicional, Uma Mulher é uma Mulher é um filme charmoso e divertido, que tem tudo para agradar os fãs de Canções de Amor e Os Guarda-Chuvas do Amor.

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