Velvet Buzzsaw, a sátira ao mundo da arte

Depois de anos atuando como roteirista em Hollywood, Dan Gilroy teve uma ótima estreia dirigindo O Abutre em 2014, e agora retoma a parceria com o sempre estranho e inventivo Jake Gyllenhaal. Em Velvet Buzzsaw ele é Morf Vandewalt, um crítico de arte bissexual que se vê no meio de um mistério sobrenatural. Um falecido pintor desconhecido se torna a sensação do mercado das artes de Los Angeles. Enquanto todos correm para lucrar com as sinistras telas do pintor, Morf entra numa espiral de loucura à medida em que se revela que essa ambição traz consigo uma maldição.

Gilroy trabalha inúmeras subtramas ao longo do filme. A dona desumana da galeria; a arrivista; o concorrente; o artista veterano ex-alcoólatra; o pintor revelação que veio do gueto; a estagiária, etc. Assim, o diretor parece flertar com o piloto de uma série. Mas sabe retomar os caminhos para um único ponto antes do fim. A medida que permite aos seus personagens transitarem em contextos propositalmente esquisitos.

Daveed Diggs e John Malkovich em cena de Velvet Buzzsaw
Daveed Diggs e John Malkovich em cena de Velvet Buzzsaw

Velvet Buzzsaw – A arte como caricatura de neuroses contemporâneas

O roteiro brinca bastante com essa dança da cadeira por núcleo de figuras em tela. Explora cada um ao seu modo, sem nunca perdoar ninguém. Assim revelando que todos nesse cenário são cobras e lagartos. Por isso, quando a punição chega (através da arte) – seja em mortes terríveis, com um retrocesso na carreira ou pelo inevitável desemprego – recebemos um senso de purificação, não de tragédia. Afinal, as estranhas e envolventes pinturas estão limpando o terreno da podridão que se alastrou.

E Gilroy é muito sagaz e autêntico em suas propostas. Uma delas é a evidente crítica ao mundo das artes. Da futilidade de alguns seres que transitam por esse meio, ao deboche realizado pelos argumentos repletos de floreios sobre a profundidade de um quadro em branco. Mas ele vai mais fundo, ao mostrar a sempre típica ambição, de dinheiro e poder.

Toni Collette e Rene Russo em cena de Velvet Buzzsaw
Toni Collette e Rene Russo em cena de Velvet Buzzsaw

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Em um segundo plano e depois como escopo principal, o diretor joga seus personagens numa espiral de “crimes”, a maneira de slasher movies, mas com um tipo de entidade nunca esclarecida, que vai executando as principais figuras desse meio cancerígeno que habita os museus. E nesse ponto, assume-se um viés trash, com efeitos especiais pobres e algumas soluções pouco inventivas, mas que funcionam de um certo jeito, justamente pela proposta de horror satírico colocado por aqui.

O elenco

O elenco não precisa de esforço para brilhar sozinho. Assim, Gyllenhaal fica bastante à vontade no manto de seu complexo protagonista, que vai decaindo em mente, corpo e contexto social a medida que a trama avança. O mesmo pode-se dizer das boas entregas de Rene Russo (que parece ter saído de O Diabo Veste Prada), Zawe Ashton, John Malkovich, entre outros. Não a toa, apenas um personagem encontra seu final feliz durante a subida de créditos; durante toda a narrativa, ele fora o único a não se envolver verdadeiramente com nada, mantendo certo distanciamento de tudo e de todos, em busca de uma inspiração que há muito não lhe chegava. Muitas metáforas em Velvet Buzzsaw não são nada sutis, mas funcionam enquanto cutucada.

Nenhuma morte é realmente inventiva e este flerte que Gilroy realiza inspirado no trabalho dos David´s – o Cronenberg e o Lynch – fica ainda no campo do esboço, tornando o filme um curioso laboratório para futuras produções bizarras, mas que já começa a apontar um DNA do diretor em começo de carreira.

Ou seja, a arte pode até matar, mas a arte precisa sobreviver.

Velvet Buzzsaw

Nome Original: Velvet Buzzsaw
Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Zawe Ashton, Toni Collette, Daveed Diggs, John Malkovich
Direção: Dan Gilroy
Gênero: Horror, Mistério, Thriller
Produtora: Netflix
Distribuidora: Netflix
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