365 Dias – A romantização do relacionamento abusivo

365 Dias conta a história de Laure Biel (Anna Maria Sieklucka), uma moça que está passando as férias na Sicília com seu namorado e alguns amigos, que chama a atenção de Massimo Toricelli (Michele Morrone), o jovem chefe da máfia local.

Ele a sequestra e diz que vai mantê-la presa por um ano, para que ela se apaixone por ele. Além disso, diz que não vai forçá-la a nada. Laure e Massimo então, passam a conviver diariamente, mesmo que ela não goste dele, até que a relação dos dois começa a se desenvolver.

Laure e Massimo
Laure e Massimo

365 Dias e o romance

O filme se define como romance e esse romance é o de Laure e Massimo, mas existem algumas questões que deveriam fazê-lo passar longe desse gênero. Massimo é o chefe da máfia da Sicília que, depois de uma experiência de quase morte, teve um delírio com uma garota que era a cara de Laure. Por isso, quando ele vê Laure andando pela cidade, ele tem certeza que ela é o amor da sua vida.

Mas ao invés de ir conversar com ela e perguntar se ela também tem interesse nele, ele acredita que a melhor maneira de resolver essa questão é sequestrando a moça e a mantendo presa em uma mansão enorme, até que ela se apaixone por ele.

Qualquer pessoa razoável consegue perceber que existem muitos problemas na caracterização desses personagens e desse romance. Massimo diz que não vai forçar Laure a nada, que ela vai procurá-lo naturalmente. Como se ele já não estivesse a forçando a ficar presa com ele por 365 dias. ¬¬

O filme se vende como um romance, mas tem muitos problemas
O filme se vende como um romance, mas tem muitos problemas

O nome do filme remete diretamente ao livro – que mais tarde virou filme – 3096 Dias, de Natascha Kampusch, que conta justamente sobre o sequestro e cárcere privado de Natasha, que passou sete anos presa na casa de seu raptor, mas a ideia é embarcar na onda de 50 Tons de Cinza, outro filme com questões problemáticas e, surpreendemente, 365 Dias tem um roteiro muito semelhante ao conto de fadas A Bela e a Fera.

Problemas

É até difícil enumerar todos os problemas que são apresentados aqui, pois são muitos, mas o tema por si só já é bizarro. Massimo sequestra Laure porque tem certeza que ela é o amor da sua vida e espera que ela se apaixone por ele em um ano.

Ele diz que não vai forçá-la a nada, mas além de a manter em cárcere privado, ele dorme na mesma cama que ela, a amarra na cama, a assedia e faz uma série de provocações abusivas. Como ele diz, ele não força Laure a fazer sexo com ele, mas o filme parece ignorar que existem inúmeras formas de abusar sexualmente de uma pessoa e Massimo pratica todas elas.

Massimo sequestra Laure para que ela se apaixone por ele
Massimo sequestra Laure para que ela se apaixone por ele

Como o filme é um romance, o telespectador já sabe que Laure (mesmo presa, reclamando e se mostrando a princípio, uma mulher forte) vai se apaixonar por Massimo e que vamos assistir a uma suposta história de amor cheia de sexo e de paixão. No entanto, é muito difícil entrar no clima desse romance, quando ele começa com um sequestro.

Relacionamento abusivo

Mesmo porque o que o filme retrata é claramente um relacionamento abusivo. Laure é praticamente obrigada a se apaixonar por Massimo. Claro que a gente pode argumentar que é possível retratar relacionamentos abusivos e que um filme que fale sobre isso pode até ser útil, o que é verdade, assim como não tem nada demais em fazer um filme que fale sobre sequestro e cárcere privado. A questão é que este filme retrata o comportamento de Massimo, que é um sequestrador abusivo, como romântico e fofo.

Uma mulher sequestrada pode se apaixonar pelo seu sequestrador, e isso é até comum, mas também é um estado psicológico. Não teria problema em retratar isso em um filme se isso fosse mostrado como algo negativo, e não como um romance bonito. O problema de retratar um relacionamento abusivo e criminoso como romântico é que se passa a mensagem de que um relacionamento como o de Laure e Massimo, que é muito problemático, é saudável para o público.

O filme 365 Dias retrata um relacionamento abusivo
O filme retrata um relacionamento abusivo

Aspectos técnicos de 365 Dias

É óbvio que o filme quer surfar na onda de 50 Tons de Cinza, mas esse longa consegue ser ainda pior. A mensagem que ele passa é extremamente problemática e em questão aos seus aspectos técnicos, ele também não é grande coisa.

Toda essa trama parece só uma desculpa para nos entregar várias cenas de sexo, que supostamente deveriam ser interessantes ou excitantes, mas não são nada disso. As cenas são sem graça e tão absurdas quanto o roteiro do filme, e algumas chegam a ser violentas, o que mais uma vez transmite uma mensagem errada, deixando claro que Massimo é abusivo.

Se a ideia da diretora era fazer um filme com muito sexo, seria mais interessante que ela produzisse um filme pornô, onde a história não é tão importante assim. E as cenas de sexo seriam um pouco mais interessantes e mais realistas.

A ideia do filme 365 Dias é vender as cenas de sexo
A ideia do filme é vender as cenas de sexo

Era melhor ter visto logo um pornô…

Como já é um clichê na maioria dos filmes, temos diversas cenas em que Sieklucka aparece quase nua, enquanto só vemos Morrone sem camisa. Mais uma vez, não existe nenhum problema com nudez no cinema, mas é de se destacar que 365 Dias foi dirigido por uma mulher e é, muito possivelmente, voltado para o público feminino. Entretanto, ela ainda acha que é razoável mostrar uma série de cenas explorando o corpo feminino, enquanto passa longe de fazer isso com o corpo masculino.

E já que o filme é sobre sexo e se dispõe em falar sobre isso de maneira supostamente aberta, porque não mostrar os dois personagens de maneira igualitária? As atuações também não chamam atenção, Morrone é bem ruim e Sieklucka se sai um pouco melhor, embora isso não queira dizer muito nesse contexto.

365 Dias romantiza comportamentos abusivos e criminosos
365 Dias romantiza comportamentos abusivos e criminosos

Resumindo, 365 Dias é um desserviço, não é um bom filme, não tem um bom roteiro, não entrega as cenas de sexo quente que promete e passa mensagens absurdas, enquanto romantiza comportamentos abusivos e criminosos.

365 Dias é um filme que quer vender, basicamente, sexo e não teria nenhum problema com isso, se o fizesse de maneira saudável. Mas quando ele relativiza relações abusivas, passa mensagens erradas e nem entrega um filme de boa qualidade técnica.

365 Dias

Nome Original: 365 dni
Direção: Barbara Białowąs
Elenco: Michele Morrone, Anna Maria Sieklucka, Magdalena Lamparska, Natasza Urbańska, Otar Saralidze
Gênero: Drama, Romance
Produtora: Ekipa
Distribuidora: Netflix
Ano de Lançamento: 2020
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