All That Jazz – O Show Deve Continuar, 1979

Um musical sobre a vida e a morte

Em All That Jazz, Joe Gideon (Roy Scheider) é um coreógrafo e diretor de cinema. Ele divide seu tempo entre ensaiar seu novo musical, beber, fumar e sair com as mais diversas mulheres. Ele deve dar um tempo na sua vida, quando (não tão) inesperadamente tem um enfarte, que o mantém preso a cama de hospital. Então, ele passa a rever cenas de sua vida, enquanto escuta as pessoas mais importantes para ele. Entre elas estão sua ex-esposa (Leland Palmer), sua atual namorada (Ann Reinking), sua filha (Erzsébet Földi) e a Morte (Jéssica Lange).

All That Jazz é um filme de 1979, dirigido por Bob Fosse e tem altos tons biográficos. O musical é inspirado no período da vida de Fosse quando ele editava o filme Lenny (1974) e preparava Chicago para a Broadway, em 1975.

O que se deve manter em mente, é que boa parte do que acontece na trama, está acontecendo unicamente na cabeça de Joe. Uma vez que as cenas em que relembra sua vida e escuta seus entes queridos são todas cenas musicais, que acontecem depois que ele teve o enfarte.

Roy Scheider como Joe Gideon
Roy Scheider como Joe Gideon

Retrospectiva da vida

O aspecto mais interessante do filme é o fato dele ser livremente inspirado nas experiências de Bob Fosse. Ele foi um famoso diretor de musicais e coreógrafo, responsável por filmes como Cabaret (1972) e Charity, Meu amor (1969) e pelas peças How To Sucess In Business Without Really Tryng (1961), Sweet Charity (1969), Pipin (1972) e Chicago (1975).

Bob Fosse não sofreu nenhum infarto no período em que fez All That Jazz e viveu até os 60 anos. Mas é interessante que nesse período ele estivesse com esse assunto na cabeça. Faz com que a gente pense que o processo de editar um filme, enquanto se cria um musical para o teatro, foi tão cansativo, que Fosse de fato pensou que poderia morrer.

De uma certa maneira, All That Jazz é o mais perto que temos de uma autobiografia de Fosse. Para tal, ele usa do personagem Joe Gideon, que também é um famoso diretor e coreógrafo, e que também está no seu limite.

Joe ensaia seu mais novo espetáculo
Joe ensaia seu mais novo espetáculo

É interessante notar que assim como Gideon, Fosse também tinha ex-esposas e uma filha.

O filme não é só a retrospectiva de vida de Gideon, também é a de Fosse. Talvez tudo que está no filme, seja o que ele queria dizer às pessoas que amava e para as quais ele sentia que tinha que pedir desculpas.

O que é importante em All That Jazz?

Joe vive uma vida completamente hedonista, regada a álcool e mulheres. Ele decepcionou sua primeira mulher, e trai com frequência sua atual namorada. Sua filha, Michelle ainda o vê como um herói. Mas ela está prestes a entrar na adolescência e as pisadas de bola de seu pai vão acabar fazendo com que ela o deteste.

Erzsébet Földi e Ann Reinking em cena do filme
Erzsébet Földi e Ann Reinking em cena do filme

Quando ele tem o enfarto e quase morre, todas as mulheres da sua vida se juntam para esperar sua recuperação. Enquanto está internado, ele começa a repensar as decisões que tomou na vida.
Joe, então, começa a perceber que ele não deu valor à sua primeira esposa. E assim, vem repetindo o mesmo erro com a atual namorada; e que ele não passou tanto tempo quanto gostaria com sua filha.

As músicas que os personagens cantam no filme falam sobre a falta que todos vão sentir de Joe. Mas também falam sobre o comportamento dele, que nem sempre foi exemplar. E como de muitas maneiras, ele procurou aquele destino. O álcool desenfreado, o trabalho ininterrupto, as traições e o abandono da filha, que o deixaram preso a uma cama de hospital, tendo que lidar com tudo aquilo.

Nesse aspecto, é muito interessante pensar no que Fosse estava querendo dizer. Especialmente para as pessoas da sua vida, fazendo esse filme.

Os números musicais se passam na mente de Joe
Os números musicais se passam na mente de Joe

A Morte

All That Jazz faz uma interpretação bem interessante da morte. No filme ela é uma bela mulher, vestindo branco, interpretada por Jessica Lange. Ela aparece para apresentar muitos dos números musicais e para falar com Joe sobre sua vida.

A morte é, provavelmente, o maior medo da maioria das pessoas. A possibilidade da morte, se não a sua própria, talvez a de entes queridos, é o suficiente para deixar qualquer um de nós apavorados. Assim, ela também é o maior mistério da humanidade. Ninguém ao certo sabe como é morrer e o que acontece (ou se acontece) depois que morremos. É interessante que em All That Jazz  a morte não é uma senhora decrépita e feia, mas sim uma jovem atraente, que em uma situação normal chamaria a atenção de Joe. Ela também não usa preto, como dizem as histórias. Ela veste branco e seu vestido tem uma leve semelhança com um vestido de noiva. A morte de All That Jazz é tudo menos assustadora.

Assim, Fosse desmistifica um pouco da ideia que fazemos da morte. Já que ela é uma mulher jovem e atraente, porque não ir atrás dela? E talvez o fato dela usar um vestido branco, queira dizer que quem a acompanha, sela um compromisso com ela. E no final das contas, esse é o caminho de todos, não importa que aparência que a morte tenha.

Jessica Lange interpreta a Morte
Jessica Lange interpreta a Morte

Números musicais

All That Jazz é um musical um pouco diferente, em vários aspectos. Todos os seus números musicais, tirando os que fazem parte da peça em que Joe está trabalhando, são interpretados no palco, mas o palco no caso desse filme é a mente de Joe. Então, em uma cena acompanhamos Joe no hospital, na seguinte temos um número musical que se passa em outro lugar, onde as pessoas que vão cantar estão usando roupas de espetáculo.

Por isso, este é um filme que pode agradar àquelas pessoas que não entendem os filmes musicais e ficam se perguntando porque os personagens param no meio da rua e começam a cantar e dançar. Mas por outro lado, ele não é um musical clássico, já que boa parte da sua ação, não passa de uma alucinação.

E quão inteligente é fazer com que as alucinações de um coreógrafo e diretor de musicais sejam justamente números musicais?

Joe e Michelle
Joe e Michelle

As músicas do filme seguem o estilo de músicas de cabaret, assim como as coreografias e os figurinos. Nada mais natural, já que é do mesmo diretor de Cabaret e da versão para o teatro de Chicago. Entre as músicas da trilha sonora estão On Broadway; Take Off With Us; Everything Old is New Again; After You’ve Gone; Who’s Sorry Now e Bye Bye Love.

All That Jazz foi indicado a nove Oscars e levou para casa quatro (melhor música, direção de arte, figurino e edição).

Ann Reinking interpreta a namorada de Joe
Ann Reinking interpreta a namorada de Joe

Bob Fosse só morreu em 1987 e ainda dirigiu mais um filme depois de All That Jazz (Star 80, em 1983), mas a sua reflexão sobre a morte é uma das mais diferentes e criativas que o cinema já viu.

All That Jazz  fala sobre a morte e consequentemente, sobre a vida, da melhor maneira possível: com números musicais.

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Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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