Artemis Fowl: O Mundo Secreto – Disney +

Ação demais para aventura de menos

Primeiramente, gostaria de deixar claro que não li os livros que serviram de base para esta adaptação. Portanto, quaisquer críticas às irregularidades da fita estão completamente desagregadas à fidelidade (ou falta de) ao material de origem. Não os li, mas me recordo bem da campanha de marketing ao redor do lançamento do primeiro livro, “Artemis Fowl: O Menino Gênio do Crime“, que em pleno auge da pottermania vendia-se como “o anti Harry Potter”, uma resposta afiada e politicamente incorreta às peripécias do bonzinho menino bruxo e sua batalha contra as forças do mal.

Ardiloso, brilhante, e amoral, Artemis Fowl era um vilão-protagonista para as crianças que gostariam de crescer e virar o Lex Luthor ao invés do Super-Homem. Aplique essa premissa sobre um background inspirado nas lendas folclóricas irlandesas e você tem o que o autor Eoin Colfer uma vez descreveu como “Duro de Matar, só que com fadas”. Uma definição como essa soa como um Santo Graal não só para um diretor criativo que queira experimentar com o gênero, mas principalmente para qualquer grande estúdio que queira algum diferencial para lançar uma franquia infanto-juvenil quando todos os outros parecem apostar em genéricos de Harry Potter. Não pode dar muito errado… não é?

Ferdia Shaw é Artemis Fowl
O iniciante Ferdia Shaw é Artemis Fowl

Artemis Fowl: O Mundo Secreto

Com um design de produção que parece saído de algum filme televisivo dos anos 2000, Artemis Fowl conta a história de um menino-gênio que descobre a existência de um mundo secreto debaixo da terra. Lá, uma civilização composta por fadas e duendes desenvolveu-se paralela ao mundo dos humanos. Ao menos é o que diz a narração feita por um Josh Gad com voz de durão que mira no Batman e acerta no Olaf. Se o Olaf fumasse dez maços de Marlboro por dia.

À parte de uma interessante interação com o terapeuta da escola que frequenta, Artemis Fowl se mostra um herói infanto juvenil tão genérico quanto possível. Ele não demonstra nenhum traço particular de genialidade ou malícia durante o resto da fita. O pontapé inicial da história se dá quando o pai do herói, o criminoso internacional Artemis Fowl Sênior (um desperdiçado Colin Farrell), é sequestrado por uma fada do mal chamada Opal. Ela o faz refém em troca de um MacGuffin (o “Áculos”) cujos poderes não são bem explicados, mas que é, naturalmente, muito poderoso. E certamente não pode cair em mãos erradas.

Mini 007

A existência de um MacGuffin seria a oportunidade perfeita para o filme mandar seu protagonista numa busca ao redor do mundo — afinal é um longa que claramente bebe da fonte dos filmes de James Bond, e poucas coisas são mais icônicas aos filmes de Bond do que as viagens a diversas locações exóticas ao redor do planeta. Entretanto, a ação se mostra decepcionantemente concentrada na mansão do rapaz. E ela não é sequer interessante (ou espaçosa) o suficiente para justificar seu protagonismo como o cenário principal da trama.

Entra em cena, talvez como co-protagonista, a fada Holly, interpretada pela promissora Lara McDonnell. Ela consegue projetar maturidade e competência que vão além de seus doze anos. Além disso, se sai surpreendentemente bem contracenando com atores mais velhos e experientes de igual para igual. Holly é membro da força policial das fadas, encabeçada pela Comandante Root — ninguém menos do que Dame Judi Dench, em um papel que pouco faz para restaurar sua dignidade depois de sua participação na atrocidade que foi Cats.

Artemis Fowl
Judi Dench é Root, uma fada policial

A trama de Artemis Fowl

Uma noite, depois de terminar uma missão secreta no mundo dos humanos, Holly decide desobedecer explicitamente as ordens de sua superior. Assim, faz um detour perto da residência dos Fowl, onde acaba sendo capturada pelo menino para ser usada como refém em um elaborado – e confuso – plano que envolve usar as fadas como meio de conseguir o tal MacGuffin.

Se a fada Opal está claramente sendo estabelecida como o big boss da franquia, o filme traz como um vilão mais imediato um personagem tão esquecível cujo nome não me importei de decorar, mas que na minha cabeça eu chamei de “Sr. Exposição” (a tradução brasileira o chamou de Porrete). Sr. Exposição é um antigo colega de Root tornado espião de Opal. Ele parece ocupar o maior tempo de suas aparições falando coisas que seus interlocutores já sabem para o benefício da audiência (“um objeto que, devo lembrá-la, é o mais precioso para nossa civilização”, “demos a ele urtigas e suco de vespa, tudo a que trolls são alérgicos”).

Quando anuncia a traição apontando uma arma para Root (“meu único erro foi não ter feito isso antes”) sinto que o filme espera que eu tenha alguma reação. Entretanto, ele não parece muito interessado em realmente construir um histórico entre esses dois personagens exceto por estabelecer que Root não era lá muito amigável com ele.

Muitas decepções

Excesso de exposição, aliás, é apenas um dos muitos erros do filme, que também incluem edição preguiçosa e atuações equivocadas. Mas o defeito central, aquele que faz a diferença entre o “apenas ruim” para “inassistível” é o fato de o filme estranhamente não ter um segundo ato.

Justo quando você sente que as introduções foram finalizadas e a aventura propriamente dita está para começar, o clímax do filme já resolve arrombar a porta (nesse caso, quase literalmente), trazendo consigo a grande e insuportavelmente longa batalha final. Personagens que mal se conhecem passam então a interagir com uma dinâmica de velhos aliados. Isso passa a nítida impressão de que um trecho intermediário considerável do filme levou a pior na mesa de edição.

Um personagem chega a ficar entre a vida e a morte aos trinta minutos para o final, em uma cena que a direção busca tratar como comovente, mas que, sem ter estabelecido previamente qualquer vínculo entre tal personagem não só com a audiência, mas também com seu protagonista, soa vazia e artificial. E o fato de um segundo personagem que mal o conhece parecer abalado até demais nessa mesma cena apenas corrobora a teoria de que a edição original foi esquartejada e recosturada novamente como um monstro de Frankenstein.

Artemis Fowl

Que confusão…

Se o resumo da história até aqui parece nebuloso é porque de fato é. Afinal, é impressionante que um filme com tanta exposição atirada a torto e a direito consiga ser tão confuso em sua essência. Nada parece funcionar nessa desastrosa empreitada em emplacar mais uma franquia fantástica. Pessoas que não estão familiarizadas com a série desligarão seus aparelhos de streaming confusas; e as que estão, muito provavelmente irão atirá-los pela
janela antes mesmo de os créditos finais começarem a subir.

Resta apenas esperar que os direitos de propriedade intelectual expirem das mãos da Disney e algum outro serviço de streaming resolva adaptar os livros no formato de seriado, como foi o destino de tantas outras franquias cinematográficas natimortas como Fronteiras do Universo, Os Instrumentos Mortais, Desventuras em Série e, mais recentemente Percy Jackson & Os Olimpianos.

Artemis Fowl estava originalmente previsto para estrear nos cinemas na primavera americana de 2020, mas foi movido para a plataforma de streaming Disney+ por conta da pandemia. O filme está disponível desde o dia 12 de junho.

Artemis Fowl: O Mundo Secreto

Nome Original: Artemis Fowl
Direção: Kenneth Branagh
Elenco: Ferdia Shaw, Lara McDonnell, Josh Gad
Gênero: Aventura, Família, Fantasia
Produtora: Walt Disney Pictures, TKBC
Distribuidora: Disney+
Ano de Lançamento: 2020
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