As Filhas do Fogo, tentando quebrar tabus

Em uma sociedade em que a sexualidade feminina é comodificada para servir unicamente ao prazer masculino, como despir essa aura de fetichismo e devolver a expressão sexual feminina para as próprias mulheres, para que esteja a serviço de seu próprio prazer e felicidade? Essa é a pergunta que uma das protagonistas de Filhas do Fogo se faz ao conceber a ideia de criar um filme pornô para mulheres. Um elemento metalinguístico, uma vez que esta película argentina se fundamenta nessa mesma proposta.

O release do filme promete “um road movie erótico” e é exatamente o que entrega, sem tirar nem pôr. Consiste primordialmente de uma alternância entre cenas explícitas de sexo lésbico e cenas de estrada no bucólico sul argentino. Com um fiapo de enredo para contextualizar essas passagens. O enredo em questão trata de um casal de lésbicas que parte em viagem para visitar a mãe de uma enquanto a outra esboça o conceito de um filme pornográfico para mulheres. Ao longo do caminho elas se juntam a outras mulheres de modo a converter seu relacionamento em um círculo poliamoroso.

As Filhas do Fogo, um road movie erótico
As personagens partem em uma jornada erótica

Seguindo a proposta de desmistificar a representação do sexo lésbico nas telas, o filme traz mulheres com diversos tipos de corpo. Vemos estrias de crescimento, gorduras localizadas, e etc. Um grito distante das beldades barbiescas que dominam o pornô lésbico feito para homens. Utiliza-se de ângulos de câmera que sugerem subjetividade ao invés de vouyerismo. Mas quando se trata de desmistificar o relacionamento poliamoroso… é, não funcionou.

As Filhas do Fogo e o poliamor

Exceto pelo relacionamento entre as duas mulheres do casal original, que tem sua dinâmica estabelecida, quase não há aprofundamento para a conexão entre as outras mulheres do círculo. Estas adentram a relação poliamorosa sem desenvolver nenhum elo com as outras em tela. Desse modo, as dinâmicas parecem mais fundamentadas no prazer frívolo do que em intimidade emocional. Assim soando menos como um relacionamento de verdade e mais como se as protagonistas estivessem colecionando lésbicas feito pokémons pelo caminho. O que sabota significantemente o investimento da audiência na relação (relações) retratada(s).

Cena de As Filhas do Fogo
Cena de As Filhas do Fogo

Assim, o filme abraça plenamente os cacoetes do cinema arthouse a ponto de se tornar um pastiche. Com intervalos contemplativos em meio a paisagens naturais (perdoável, já que se trata de um road movie) e monólogos filosóficos dignos de uma sessão de slam poetry que pegam o espectador pela mão e explicam os temas do filme mastigadinhos. Destrói assim qualquer sutileza que o filme poderia oferecer — algo reforçado por certas composições como a cena de sexo no altar de uma igreja que remete a um parto, ou uma reinterpretação da Ofélia de Waterhouse, cercadas de um pretensiosismo inócuo.

No fim das contas, As Filhas do Fogo é um filme que tenta ser um pornô e tenta ser um filme de arte. Mas acaba não tendo sucesso em ambos. Entrega então uma experiência aborrecida e soa como o trabalho final de algum estudante de humanas que foi aprovado por uma margem estreita só pelo conceito.

As Filhas do Fogo entra em cartaz dia 14 de março.

As Filhas do Fogo

Nome Original: Las hijas del fuego
Direção: Albertina Carri
Elenco: Cristina Banegas, Andres Ciavaglia, Sofía Gala, Erica Rivas
Gênero: Drama
Produtora: Gentil
Distribuidora: Vitrine Filmes
Ano de Lançamento: 2018
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