Desencanto – 1ª temporada (2018)

Politicamente incorreto

Os trunfos de Desencanto começam com os personagens. Visto que são moralmente falhos (como o esperado em qualquer produção do autor) e extremamente carismáticos.

Bean é uma princesa bêbada que busca seu lugar no mundo. Definitivamente não ao lado de um príncipe. Primordialmente, ela consegue discursar feminismo sem panfletagem gratuita; além dos conflitos incessantes com o pai (e muitas meninas vão se identificar aqui): um rei escroto, mas que se fundamenta em seu papel conforme os episódios avançam.

Elfo, um elfo vindo de um vilarejo feliz e secreto, em uma clara referência aos Smurfs e também aos Hobbits. Com sacadas geniais de fofura e doçura que criam contrapontos com a putaria que ele segue embaixo das cobertas. O personagem é o maior alvo de bullying da série, ainda mais dada sua ingenuidade intrínseca. O que permite ainda abertura para outros objetivos no enredo, envolvendo seu sangue especial.

E finalmente, Luci, um demônio afetado. Invocado por uma seita misteriosa e enviado para ser o mascote da princesa em um propósito maior, inteligentemente ainda não revelado. Malicioso, sarcástico e ácido, a pequena entidade é, desde já, um dos melhores personagens criados na década. Os demais no elenco pontuam e ornamentam bem a produção de Desencanto em suas homenagens a outros homônimos, realizadas aqui de maneira brilhante. Temos então o príncipe transformado em porco e a rainha madrasta anfíbia. Temos o velho sábio da caverna e a velha bruxa. O mago que serve o reino e o paladino xarope. Uma grifo improvável, a gigante mais improvável ainda, entre outros monstros e criaturas, construídos de maneira inventiva. Dentro da proposta subversiva da série, claro.

Matt Groening e Josh Weinstein criaram (Des)encanto

Ainda que tenha episódios interligados e narre uma trama maior, com subtramas orbitando (diferentemente do que é feito em Os Simpsons), Desencanto não exatamente funciona para “maratonar”. Pode ser assistida em doses graduais. Cada episódio fornece uma situação honestamente engraçada, com gags fortemente cômicas. Pontuadas por uma dublagem inspirada e sensacional, que assume os memes como norte, o que torna obrigatório que se assista dublado. Referenciando contextos que vão desde O Senhor dos Anéis, Game of Thrones, Xena, a Harry Potter, Feitiço de Áquila e qualquer outra obra capa e espada/ fantasia/ aventura medieval, com sacadas geniais, que vão agradar especialmente os fãs do gênero.

Entre os ótimos exemplos, temos o reino anfíbio que faz um paralelo com os chineses; a história de guerra por conta de um canal; a rainha amaldiçoada que guarda uma grande mágoa do passado; a busca por um objeto mágico que pode mudar o rumo das coisas; também temos um infiltrado traidor; a conspiração de uma trama maior; além de brincadeiras com contos de fada e até com situações contemporâneas ajustadas para aquele período. Tudo isso embalado por diálogos sagazes, abrilhantados pela dublagem super à vontade no roteiro. Consequentemente, uma animação fluída e competente (e não precisa de muito aqui). Com cenários deslumbrantes e um tipo de história que, por mais que siga obviamente as convenções do gênero, também contorce os tropos para entregar um humor adulto de primeira.

Não é Simpsons, ok?

Engana-se o espectador que espera algo tal qual Os Simpsons (Futurama não sei, porque nunca vi), já que são propostas de humor diferentes, situados em contextos distintos. Groening é Groening e aqui ele mantém sua assinatura e consegue ser extremamente criativo dentro da proposta. Ponto alto para os dois episódios finais, que corajosamente assumem um tom mais sombrio (com direito a uma “morte” e uma traição). No entanto, mantem em aberto muitas questões jogadas no início, principalmente em relação a seita secreta. Seita essa que envolve algo maior, e provavelmente seguirá ao longo das demais temporadas.

Desencanto

Nome original: Disenchantment

Elenco: Vozes originais de Abbi Jacobson, Eric André, Nat Faxon, John DiMaggio, Tress MacNeille

Gênero: Animação, Aventura, Comédia

Produtora: Netflix

Disponível: Netflix

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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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