Dorohedoro – Cyberpunk, dark-fantasy, gore e escroto

Anime anárquico é inventivo, retardado, misterioso e sem igual

Imagine uma história retirada das páginas de uma edição da revista Heavy Metal, situada num mundo muito particular e inventivo, com estética cyberpunk (ao melhor exemplo de “Akira”, do Otomo), com personagens caracterizados ora por um Simon Bisley (“Lobo”) ora por um Taiyo Matsumoto (“Tekkonkinkreet”), em uma fusão anárquica muito bem pensada, que dosa perfeitamente escrotidão, humor negro e fantasia urbana repleta de magia, com trama de mistério no pano de fundo. Isso é Dorohedoro.

A produção do estúdio MAPPA (o mesmo do recente “Dororo” da Amazon Prime) adapta o mangá homônimo de Q Hayashida (23 volumes entre 2000 e 2018) para um anime de 12 episódios de 20 minutos cada, que narra a rotina de Caiman, um cara grandalhão que acordou certo dia com rosto de lagarto e segue sem memória em busca do que realmente aconteceu, contando com a ajuda de sua amiga Nikaido, uma incrível cozinheira e especialista em Gyoza e porrada.

Dorohedoro

Dorohedoro

Ambos moram no Buraco, cenário pós-apocalíptico e miserável sempre assolado pelos Feiticeiros (que vem de um mundo paralelo, através de portais). Ali também se encontram figuras curiosíssimas como a da dupla executora Shin e Noi; dos jovens Ebisu e Fujita; e o excêntrico En, além de tipos como o Prof. Kasukabe, Vaux, Johnson, Chota e tantos outros. O elenco riquíssimo de personagens extremamente carismáticos e cativantes vão certamente envolver o espectador, independentemente de serem praticantes de magia ou habitantes do Buraco.

Desenhado de uma maneira belamente suja e, muitas vezes, grotesca e até asquerosa, o anime é feito num imperceptível cel shading (muitos anos-luz superior aos já bem realizados em “Príncipe Dragão” ou “Beastars”, por exemplo), com uma animação tecnicamente incrível, não deixando nada a desejar nas cenas de luta ou de morte brutal (que ora evocam Narutl Shippuden, ora evocam Berserk), com um humor cínico, ácido e negro em um roteiro super bem amarrado, repleto de diálogos certeiros e gags bobocas que equilibram o jogo o tempo inteiro, do começo ao fim.

Dorohedoro

Muita criatividade

Com um mundo rico em ideias, funcionalidades e mitologia própria, oferecendo passagens dicotômicas diversas, da mais besta rotina (como uma feira livre ou um concurso de gyozas) até os eventos mais impactantes (como um cirurgia num hospital abandonado ou uma sangrenta batalha em uma catedral), Dorohedoro ainda flerta com o horror, colocando demônios ocidentais em tela (com direito a punições e Inferno), mas tratados como os onis orientais (são criaturas sensatas, que inclusive ajudam os protagonistas e alguns deles até tentaram “se tornar diabos” no passado, como se isso fosse uma conquista em vida). Atenção ainda a trilha repleta de energia e aos créditos, que sempre alterna os encerramentos (e que ainda contribuem para detalhes da história).

Abolindo qualquer grilhão criativo, a produção investe toda sua força no enredo, nos cenários vistosos e no engajamento com o público, seja através do mistério (que claramente não se resolve nessa temporada), seja através de seus personagens (tem de fato para todos os gostos). Este é um anime poderoso e inventivo, incomparável com outros lançamentos recentes. Ou seja, dentro de seu próprio universo, é único, maluco e obrigatório para qualquer espectador de bom gosto. Ou apenas alguém surtado que precisa de um escape.

Dorohedoro

Dorohedoro é um soco no estômago, mas feito com amor e um sorriso no rosto – seja ele humano ou réptil.

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