Encontros e Desencontros, clássico moderno

Fala com todos os públicos de maneira sensível, singular e memorável

Hoje em dia sabemos que o longa mais memorável da carreira de Sofia Coppola foi uma maneira dela desabafar o fracasso de seu casamento com Spike Jonze, que chegou a aparecer nos bastidores de Encontros e Desencontros; ela pediu o divórcio após o lançamento (e ele levou dez anos para realizar uma carta em resposta a ela, quase um pedido de desculpas, com a mesma atriz: o tão maravilhoso quanto, “Ela”).

Essa melancolia permeia toda a história das duas figuras perdidas em Tóquio. Uma a trabalho, outra apenas como acompanhante modelo, ambos estranhando uma cultura tão diferente e incapazes de compreender o idioma. Eles fazem o que podem para se distrair em seus intervalos… até se encontrarem.

Encontros e Desencontros

Nunca, nem antes nem depois, Sofia fora tão sensível e sincera como é nesta obra-prima moderna, já um clássico para as últimas gerações. Desprendida de vaidades e ousando com filmagens proibidas pelas ruas da capital japonesa, a diretora imprime uma fotografia lavada, como o é na vida real, permitindo assim que o sufoco e prostração de seus protagonistas transborde em tela. Oferece também cenas retiradas de um cinema indie, com momentos contemplativos de puro silêncio, sublinhando assim a solidão de maneira marcante.

Encontros e Desencontros

Da mesma forma, Sofia compõe sequências tocantes e marcantes, mesmo 17 anos depois, tais quais como a de Bob e Charlotte deitados na cama, apenas com o pé dela tocando sua perna, enquanto conversam e pegam no sono; o primeiro encontro no bar do hotel; a deliciosa situação no karaokê; a despedida no meio da rua, entre outras tantas.

Encontros e Desencontros

Sendo escrito e dirigido por uma mulher, com uma mentalidade muito à frente de seu tempo, fica evidente em Encontros e Desencontros algumas decisões que, vistas hoje, podem soar normais, mas que na ocasião foram um grande diferencial. Assim como a maneira que um homem trata uma mulher, sem qualquer tipo de assédio, mesmo quando em contexto de intimidade e reciprocidade. Ou das curvas estonteantes da garota que são enaltecidas várias vezes pela câmera, mas com tom de respeito e contemplação (para mostrar como ela está “largada” naquele contexto), e não com sexualização.

Obra-prima

Além da trilha sonora emocionante de Marie Robert (que conta com vários artistas, de Patti Smith a Pretenders), o elenco também brilha. Scarlett Johansson e Bill Murray estão excelentes, com uma química de fazer inveja para muitos casais do cinema. Enquanto Scarlett (Charlotte não tem dois T por acaso) está mais meiga, adorável e delicada do que nunca, completamente apaixonante em sua naturalidade doce, temos um Bill (nem tampouco Bob começa com B à toa) impaciente, indignado e antipático.

A apatia de ambos só é curada quando se conhecem e conforme o “relacionamento” deles vai avançando. Tudo isso sem a necessidade de apertos ou beijos calorosos. Afinal, a “paixão” e suas intenções residem nos olhares de seus personagens, uma linguagem completamente acessível e compreensível por parte do público.

Sofia Coppola, ao transformar seu desabafo em arte, também traduziu uma manifestação singela e sincera do amor: de que durando ou não, ele pode estar em qualquer lugar, inclusive onde você menos imagina. Basta prestar atenção.

Encontros e Desencontros

Nome Original: Lost in Translation
Direção: Sofia Coppola
Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi
Gênero: Comédia, Drama
Produtora: American Zoetrope
Distribuidora: Universal
Ano de Lançamento: 2003
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