Graças a Deus, filme sobre pedofilia na igreja católica

Graças a Deus é o novo filme de François Ozon e é inspirado em uma história real. Depois de reencontrar um amigo de infância, Alexandre (Melvil Poupaud) volta a pensar nos abusos que sofreu quando criança por parte do padre Preynat (Bernard Verley). Ele manda uma carta para a igreja detalhando tudo que aconteceu e é recebido por eles, mas o caso logo é acobertado e Preynat não é punido.

Quando descobre que o padre continua na ativa e ainda trabalha com crianças, Alexandre resolve ir mais fundo. Ele se une a outras vítimas do pedófilo para tornar a história pública.

Graças a Deus fala sobre pedofilia na igreja católica
O filme fala sobre pedofilia na igreja católica

Diferentes pontos de vista

Graças a Deus começa com Alexandre contando a sua história por meio de uma carta enviada ao cardeal da igreja de Lyon, Barbarin (François Marthouret). Na carta ele não poupa detalhes do que aconteceu quando era criança. Soa até meio frio, bem diferente do que imaginamos que uma vítima de abuso se comporte enquanto fala sobre isso. Ele também não parece ser um homem traumatizado ou sequer marcado por isso. É um homem bem sucedido, bem casado e pai de cinco filhos. Na verdade, a impressão é que Alexandre só se lembra do ocorrido quando seu amigo lhe pergunta se o padre também o tocou.

Ao longo do filme, especialmente quando Alexandre conversa com a conciliadora da igreja (Martine Erhel), percebemos que essa impressão não é verdadeira. O abuso que sofreu realmente modificou Alexandre.

No entanto, o que Graças a Deus faz muito bem é mostrar diversas vítimas de Preynat e suas reações e seus traumas. Bem diferentes um do outro, afinal, eles são pessoas diferentes. Além de Alexandre, acompanhamos François (Denis Menochet), que quer vingança; Emmanuel (Swann Arlaud), que em função dos abusos sofreu mutilações físicas; e Giles (Éric Caravaca), disposto a abrir mão até de sua carreira para contar sua história publicamente. Outras histórias são contadas e outros homens são citados, nos mostrando que, embora tenham traumas diferentes e tenham se tornado pessoas diferentes, eles tem algo em comum: o abuso que sofreram.

Alexandre e a esposa em Graças a Deus
Alexandre e a esposa

O padre

Também é interessante perceber que o longa dá voz até para o padre acusado de molestar os meninos. No começo, as câmeras parecem nem julgá-lo tanto assim. Preynat aparece como um senhor idoso e já debilitado, que em qualquer situação normal se passaria por um vovôzinho qualquer. Entretanto, a plateia já o conhece com a pesada sentença de pedófilo acima de sua cabeça.

Quando ele tem um absurdo encontro de reconciliação com Alexandre, promovido pela igreja, Preynat admite sua culpa. Ele diz que “sempre teve um problema com crianças”, mas que nunca imaginou o mal que poderia causar. Alexandre sai do encontro muito mais perturbado que Preynat, que parece achar que admitir a culpa sem sequer pedir perdão, é o suficiente para limpar sua alma e trazer de volta a paz a Alexandre.

Graças a Deus acompanha diversas histórias de abuso
O filme acompanha diversas histórias de abuso

Por isso, a princípio, Graças a Deus parece um filme que não quer julgar seus personagens, mesmo que eles sejam indiscutivelmente, monstruosos. Mas, com o tempo vamos percebendo que, embora ele dê o direito de resposta a Preynat, essa é só uma maneira de mostrar toda a hipocrisia que circunda a igreja católica.

A igreja católica e a pedofilia

Escândalos de pedofilia envolvendo padres, hoje em dia, já são assuntos batidos. A ideia de que existem padres pedófilos não é exatamente uma novidade. Então, o que exatamente faz de Graças a Deus um filme diferente?

Este é um filme que narra os abusos dentro da igreja católica do ponto de vista de suas vítimas. Esse é o mote principal de sua trama. Em muitos aspectos, nos lembra Spotlight: Segredos Revelados, ganhador do Oscar de melhor filme em 2016, que acompanha a investigação por trás da primeira matéria que denunciava a pedofilia dentro da igreja. Mas, se em Spotlight a pesquisa começa a partir dos jornalistas, em Graças a Deus ela parte das próprias vitimas.

Graças a Deus fala da hipocrisia da igreja católica
Graças a Deus fala da hipocrisia da igreja católica

Mas os dois filmes tem outras semelhanças: ambas as investigações vão se abrindo a ponto de descobrirem cada vez mais vítimas e os dois casos são completamente ignorados pela igreja católica.

Graças a Deus?

Por isso, Graças a Deus é sim uma crítica à igreja. O longa não entra no mérito do celibato, apontado como principal causa para esse “fenômeno” de padres que abusam de crianças, mas fala com muita clareza sobre a hipocrisia na instituição. A igreja católica, que tem tantas morais e está sempre disposta a julgar o primeiro passo “errado” de qualquer um, não está nem um pouco disposta a admitir seus erros, que dirá corrigi-los.

Barbarin não afasta Preynat de suas funções de padre e permite que ele continue rodeado de coroinhas. E quando questionado sobre isso responde que “segundo nosso Senhor devemos amar as crianças… bom, talvez nem tanto”. Assim, Graças a Deus não é um filme fácil, seja por seu tema e suas descrições de abuso, seja pelo descaso e a recusa em corrigir e punir esse problema.

Alexandre, François e Giles
Alexandre, François e Giles
Aspectos técnicos de Graças a Deus

O longa é bem produzido, e consegue abarcar em sua trama diversos anos e diversas histórias. Ele o faz de maneira bem natural, e o tempo parece passar rápido quando estamos envolvidos na trama. Também traz um número grande de boas atuações, portanto, é difícil dizer quem é o protagonista do filme. Todas as histórias são muito poderosas, mas Melvil Poupaud se sai muito bem, sabendo exatamente como dosar o homem durão que é no dia a dia e o homem traumatizado e assustado que restou depois dos abusos. Assim como Swann Arlaud, que interpreta um personagem um pouco mais complicado e bem mais traumatizado, cheio de problemas de saúde, que remetem diretamente ao seu passado.

Também é importante ressaltar a atuação de Bernard Verley, interprete de Preynat, que passa de um senhorzinho simpático para um monstro pedófilo em dois segundos e que nos convence nos dois momentos.

Melvil Poupaud em cena do filme
Melvil Poupaud em cena do filme

O filme é relativamente longo, tem 2 horas e 17 minutos, mas não é nem um pouco cansativo. Consegue prender a atenção do espectador do começo até o fim. Seu ponto alto é o fato de contar uma história real, que é terrível, mas que precisa ser contada. A história narrada em Graças a Deus não é a primeira a tratar de padres abusando de crianças e, tristemente, não será a última. Mas é justamente por isso que um filme como esse é importante.

Graças a Deus entra em cartaz no dia 20 de junho, mas também faz parte da programação do Festival Varilux de Cinema Francês.

Graças a Deus

Nome Original: Grâce à Dieu
Direção: François Ozon
Elenco: Melvil Poupaud, Denis Menochet, Swann Arlaud, Éric Caravaca, François Marthouret
Gênero: Drama
Produtora: Mandarin Films
Distribuidora: California Filmes
Ano de Lançamento: 2018
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