Legalidade – Leonel Brizola é o Tony Stark brasileiro

Enquanto não é completamente aniquilada pelo governo Borsalino, a Ancine segue no seu projeto de fazer um “Lula, o filho do Brasil” para cada político até o final da década que vem. O escolhido da vez para atuar de herói é Leonel Brizola, na película Legalidade (“Breezeola, the man who said hi to the wind”, Brazil, 2019), que retrata um período particularmente sensível da política brasileira, da renúncia de Jânio Quadros e posse de João Goulart.

Como fatos históricos não podem ser considerados spoilers, é com o coração leve que eu tô metendo os próximos parágrafos aqui no meio do texto.

Contexto Histórico para entender Legalidade

Na categoria “político-show”, aquelas celebridades políticas que dão pequenas amostras de exibições marcantes para continuarem na boca do povo e seus nomes propagarem por aí (tipo o Suplicy andando de cueca vermelha no Congresso Nacional), uma das figuras mais marcantes foi o paulista Jânio Quadros. Com uma carreira política de ascensão meteórica, ele logo chegou à disputa da presidência usando como marca registrada a vassoura (“varre varre vassourinha, varre varre a bandalheira”), que prometia varrer a corrupção do Brasil e tem que mudar isso aí, taokey?

Jânio e a vassoura

Jânio Quadros fazia de seus comícios um folclore: ele fingia desmaiar de exaustão no meio dos discursos; tomava falsas injeções pra parecer que estava retomando suas energias; sentava na guia da calçada pra comer sanduíche de mortadela com o povão; andava despenteado, com roupas surradas e ainda botava talco no paletó para fingir que tinha caspa.

Obviamente, o eleitorado afegão-médio brasileiro amava aquele sujeito. E, afinal, o povo estava cansado da velha política e queria mudanças. Não teve pra ninguém: Jânio foi eleito presidente com 5,6 milhões de votos – a maior votação até o momento no Brasil. Na época, as votações para presidente e vice-presidente eram separadas, e o “direitista” Jânio teve que engolir como vice um “esquerdista”: João Goulart.

Como presidente, Jânio ficou maluco:

Ele vetou o uso de lança-perfume, baniu as rinhas de galo, regularizou os jogos de carteado, proibiu as cocotinhas da época de usarem biquíni e ainda controlava o tamanho dos maiôs. Até a própria direita estava ficando pasma em ver o presidente estreitar relações comerciais com a comunista China e condecorar Che Guevara com a ordem do Cruzeiro do Sul.

Brizola e Che Guevara
Brizola e Che Guevara

Mas, no geral, o governo seguia com uma tranquilidade não-usual à política brasileira. As coisas seguiam tão tranquilas que sobrava tempo para o presida estabelecer seu plano infalível. Então, ele ordenou que o vice João Goulart fosse comprar bugigangas na China e, em 25 de agosto de 1961, Jânio mandou tudo às favas e renunciou. Ele atribuiu como justificativa a existência de “forças terríveis” que o impediam de governar.

O plano de Jânio era ousado e um tanto quanto estúpido:

Sendo pressionado por um congresso direitista por suas ações esquerdalhas, o cara achava que tanto o congresso, quanto os militares, quanto o povo, não iam querer o comunista João Goulart no poder. Afinal, naquela época de guerra fria, todo mundo que ia contra os ideais da direita era considerado comunista. “Ainda bem que essa época já passou”. Então ia todo mundo implorar pra manter o bonitão lá no poder, o que ele faria de acordo com suas condições, voltando nos braços do povo.

Entretanto, não foi bem isso o que aconteceu. O congresso e os militares aceitaram a renúncia na hora; presidente não costuma terminar mandato no Brasil mesmo. Mas aceitar o esquerdalha Jango no poder? Aí parecia demais. Os militares falaram que não aceitariam isso. O vice, então, foi voltando da China devagar, fazendo várias paradas pra dar tempo das coisas se acalmarem por aqui.

Legalidade
Brizola no rádio

E é aí que entra Leonel Brizola, na época governador do Rio Grande do Sul. João Goulart era seu cunhado, então obviamente não era puro apreço às vontades constitucionais que moviam as atitudes do cara. Ele mandou um #NãoVaiTerGolpe, se entrincheirou no Palácio do governo, adotou literalmente o “se necessário, pegaremos em armas”, distribuiu arma pra todos seus funcionários e ele mesmo andava pra lá e pra cá com uma metralhadora. Transferiu os equipamentos da rádio Guaíba para os porões do palácio, e montou a “rádio Legalidade”. Lá ele fazia discursos defendendo a posse do cunhado; numa espécie de “voz do Brasil” 24 horas por dia.

Mas e o filme Legalidade, malandro?

A obra do diretor Zeca Brito foca quase que exclusivamente nos fatos desse último parágrafo: Tanto Jânio Quadros quanto João Goulart parecem meros figurantes da história, principalmente diante do extremo protagonismo tomado por Leonel Brizola – muito bem interpretado pelo já falecido Leonardo Machado, em seu derradeiro papel. É importante notar que o filme contou com a consultoria de vários membros da família do político e, portanto, apresenta um forte viés da visão do seu protagonista, que claramente atua como o herói livre de defeitos, com o intuito de defender a justiça e respeitar a constituição a qualquer preço. Um símbolo de caráter e bom-mocismo nacional. O herói que a gente precisa.

Cleo e Fernando Alves Pinto
Cleo e Fernando Alves Pinto

Com um personagem principal tão perfeito e moralmente incontestável, a história precisou criar um romance de novela ao redor dos acontecimentos para ter alguma coisa pra contar. Na falta de algo mais criativo, meteram um triângulo amoroso envolvendo a Cléo Pires (que, tal qual Beyonce, agora é só Cleo, ela tirou o acento e o sobrenome). A atriz, porém, apresenta em tela o mesmo carisma de uma pastilha efervescente. Sua atuação só chama atenção com a exibição gratuita de peitinhos (que nem isso é mérito dela, já que são provavelmente de uma dublê).

História com ficção

O romance aproveita para encher de ficção os fatos históricos – algo que eu não tenho problema nenhum em aceitar, desde que seja bem motivada, o que não acontece. Uma pena que a história seja poluída com um enredo tão terrível, já que a produção é muito bem feita. A década de 60 é bem retratada, incluindo filmagens feitas dentro do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho.

Provavelmente, durante o corte final, o filme não estava ruim o suficiente para os padrões nacionais, então os produtores decidiram adicionar uma história paralela passada no tempo presente só para desperdiçar o talento de Letícia Sabatella, já que esses acontecimentos não adicionam NADA na trama e são tão interessantes quanto esperar o ônibus para o centro em um domingo chuvoso.

Legalidade
Legalidade

E vale a pena?

É curioso aprender sobre a Campanha da Legalidade que o filme retrata, já que ela é um fato praticamente desconhecido da história do Brasil, uma vez que seu sucesso em conter a ditadura durou apenas 3 anos – os militares tomaram o poder em 1964, mandando João Goulart para o exílio. Ao assistir Legalidade, porém, é preciso aceitar o forte viés que rege o filme, aturar o romance novelesco, e a péssima atuação da Cleo. Se for só pelo contexto histórico, a dica é mesmo ficar em casa ouvindo o podcast da Folha sobre o assunto.

Legalidade

Nome Original: Legalidade
Direção: Zeca Brito
Elenco: Cleo Pires, Leonardo Machado, Fernando Alves Pinto, José Henrique Ligabue, Letícia Sabatella, Fábio Rangel, Sapiran Brito
Gênero: Drama, História
Produtora: Prana Filmes
Distribuidora: Boulevard Filmes
Ano de Lançamento: 2019
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