Meu “Querido” Elfo, comédia russa para a família

Na mitologia eslava, um domovói é um espírito protetor da casa, geralmente identificado como a alma do primeiro chefe de família que habitou aquele lar. Sua presença é via de regra invisível e tranquila, sendo sentido por ruídos ou murmúrios; a ele compete cuidar do bem-estar da habitação, sobretudo cuidadoso com as crianças e os animais da família.

No “catadão” de lendas e folclores nórdicos, indo-europeias e também eslavas que K. K. Rowling fez para criar o universo Harry Potter, um espaço ela abriu para o mito do domovói: Dobby, o elfo doméstico, é um exemplo claro de sincretismo mitológico, mudando a roupagem do personagem para uma geração globalizada fã de Tolkien. Baseado em tudo isso, surge esse bom Meu “Querido” Elfo, reaproveitando a figura de Dobby e trazendo de volta ao mundo russo sua própria mitologia, reelaborada pelo mundo ocidental.

Meu “Querido” Elfo

Aqui vemos Viktoria (Ekaterina Guseva) adquirindo um apartamento num antigo prédio soviético para viver com sua filha Alina (Alexandra Politic) e seu gato. Mas elas não sabem que ali vive um elfo doméstico (Sergey Chirkov), estranhamente hostil às novas moradoras. Em meio ao embate de Viktoria com o protetor etéreo, a trama contempla a presença de uma bruxa, Fima (Olga Ostroumova-Gutshmidt), contratada inicialmente para exorcizar o elfo mas que encontra no apartamento algo que deseja ter.

Meu Querido Elfo

Meu “Querido” Elfo não é um filme para crianças pequenas (a classificação indicativa é de 12 anos). A não ser que os pais ou responsáveis tenham jogo de cintura suficiente para explicar situações como a mãe solteira protagonista, assédios sexuais, casais jovens transando e dormindo em barracas e gags por vezes maliciosas. Numa época em que os russos são famosos por suas postagens excêntricas na internet (procure saber mais sobre isso), a narrativa se torna pouco surpreendente.

Tecnicamente falando, ele é uma cruza entre a proposta de Grinch com a velocidade visual de Caça-Fantasmas, este último do qual retira várias referências visuais (o prédio alto, os sons incidentais, a trilha sonora). É curioso o modo como esse longa se apropria da arte comercial ocidental para gritar em russo ao mundo: “Olhe, estamos aqui, temos personagens tradicionais interessantes pra mostrar, do jeito que vocês gostam!”.

Excentricidades russas

Dois elementos adicionais se tornam também protagonistas do filme: o idioma e sua sonoridade. Estes se encaixam perfeitamente no ritmo e ajudam a manter o ar estranho de toda a estrutura. Além disso, o gato, único ser vivo que vê o elfo e conversa com ele, autor de algumas falas realmente engraçadas (“tomara que essa bruxaria toda não acabe invocando Satanás!”).

A irregularidade, entretanto, aparece em alguns momentos, como por exemplo no excesso de tentativas frustradas de Viktoria em enfrentar o elfo (tornando o lance todo algo repetitivo); a estranha falta de temor dela em lidar com o que não consegue compreender; e algumas más atuações, em especial dos personagens secundários. Também ocorrem momentos em que claramente o longa sente que pode estar exagerando nas ousadias e tira o pé. Veja, por exemplo, a relação de Viktoria com seu trabalho ou a relação do filho de Fima com a namorada. O desenlace da trama também é concessivo à sensibilidade do público médio.

Mas é, no todo, um filme legal. A boa atuação de Chirkov, passa inclusive a clara sensação de que poderia dar mais, se quisesse (ou pudesse). Portanto, se você não se incomodar com o excesso de comercialismo e ainda tem um pé ou os dois no universo mítico de filmes como Animais Fantásticos…, pode vir a gostar.

Meu Querido Elfo

Nome Original: Domovoy
Direção: Evgeniy Bedarev
Elenco: Dmitriy Bedarev, Dmitriy Belotzerkovskiy, Mikhail Bespalov
Gênero: Comédia, Família, Fantasia
Produtora: ?
Distribuidora: A2 Filmes
Ano de Lançamento: 2019
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