Mistborn – Nascidos da Bruma: O Império Final | livro 1

Com uma escrita simplória e personagens cativantes, Brandon Sanderson inicia a Primeira Era de Mistborn com o pé direito.

O universo é “anti-épico”, como o próprio autor cunhou. Apresenta aqui um mundo que foi ameaçado pelas Profundezas e teve um herói para enfrentá-la. Mas a sinopse já indica que ele falhou. Ao colocar o Mal como vitorioso, o autor inverte um dos tropes da fantasia de maneira curiosa.

A história do livro se inicia mil anos depois. O tirano e aparentemente imortal Senhor Soberano domina todos os reinos. A sociedade é dividida entre os nobres e os skaa – os escravos. Neste cenário, temos também os brumosos (seres capazes de manipular um dos metais alomânticos) e os nascidos das brumas (que dominam todos os metais). Dentre eles, Kelsier se destaca por ser um mestiço que quer se vingar do vilão aplicando um golpe no império, à lá Onze Homens e Um Segredo, mas aqui contando com 6 figuras interessantes, mais uma novata que rouba as páginas.

Alomancia em Mistborn

Um dos pontos fortes de Mistborn é o conceito da alomancia. É inegável que Sanderson criou um dos mais complexos e ricos sistemas de magia da fantasia atual. A capacidade de retirar poderes dos metais é bem trabalhada ao longo de todo o livro. Sendo crucial para as grandes cenas e do clímax. A alomancia e também a feruquemia são facilmente compreensíveis. E se mesmo assim você não entender, tem um glossário mais explicativo no final.

A magia precisa de regras para ser crível em universos ficcionais e assim não parecer que foi tudo fácil, simples ou veio do nada. A não ser, é claro, que seja uma obra infantil onde isso não é relevante. De todos os trunfos do livro, esse sistema é de longe o melhor. Funcional e imagético, ele orna na narrativa, sendo intrínseco e fundamental praticamente durante toda a trama.

Mistborn-Nascidos-da-Bruma-O-Imperio-Final-livro-1Os personagens

Outro êxito são seus personagens carismáticos ao extremo. A começar pela dupla protagonista. Kelsier é o líder sorridente, sagaz e que conquista facilmente qualquer leitor em menos de dois parágrafos. Aquele que esconde por trás de sua alegria um passado tortuoso. Ele é o responsável pelo andamento do enredo e de um plano louco e magistral. Por outro lado, acompanhamos a evolução natural de Vin, estranhamente a única mulher relevante em todo o livro. Espero que isso seja corrigido nas obras seguintes. Ela sai da vida de uma meia-skaa ladra que não tem amigos nem confia em ninguém. Precisa então fingir ser uma nobre em bailes enquanto cresce como alomântica. E assim vai se tornando uma pessoa mais sensível e integrada socialmente.

Os dois são responsáveis pelas melhores sequências de ação do livro, com lutas pirotécnicas – que deixarão qualquer fã de Matrix boquiaberto. O restante do elenco não faz feio, a começar pelo bando: Brisa, Marsh, Dox, Ham, Trevo e Fantasma. Personagens estes com habilidades específicas para as ações do plano maior, com perfis de acordo com seus poderes. Ainda que sejam ofuscados pelo brilho inegável de seu líder.

Todos são importantes para o enredo em diferentes pesos e situações, mas é Sazed que se destaca. O mordomo de Kelsier e tutor de Vin faz parte de uma raça antiga capaz de memorizar qualquer coisa ou evento. É um estudioso de religiões perdidas (todas com ótimas sacadas) e culturas extintas pelo vilão opressor.

Do outro lado…

No meio dos adversários, temos os viz nobres, os obrigadores, os matabrumas, guardas e principalmente os aterrorizantes inquisidores – criaturas horrendas com um poder imenso e uma origem nebulosa. O Senhor Soberano, a primeira vista parecerá mais clichê do que inovador. Implacável e indestrutível, o tirano comanda com punho de ferro todo o Império Final (onde se encontra Luthadel, a maior cidade do mapa), em um reinado que já dura mil anos.

Mas Sanderson reverte os conceitos e, usando trechos do diário do Herói das Eras no início de cada capítulo (e no meio deles), deixa várias pistas falsas – e outras verdadeiras –, intrigando até as últimas páginas sobre sua verdadeira identidade, que é entregue numa impressionante revelação final. A apresentação meio óbvia, dá lugar a uma discussão sobre caráter, escolhas e a natureza humana.

Por fim, não menos importante, temos o nobre Lorde Elend Venture. As cenas em que ele aparece favorecem a narrativa, entrecortando capítulos de didatismo sobre alomancia, ou de lutas, ou de planejamento do golpe. O flerte entre o espirituoso rapaz e Vin nos bailes da nobreza (que figura entre meus capítulos prediletos do livro) fornece momentos leves, com alguns conflitos e críticas socais.

Sanderson é sagaz ao costurar o relacionamento entre os dois jovens ao estilo Jane Austen. Isso resulta em um par com ótima química, apontando ainda um provável co-protagonismo para Elend futuramente.

Outras considerações

O detalhe realmente fraco da publicação se dá na escrita de Brandon Sanderson. Culpa tal que também poderia recair sobre a tradução. Simplória, tem parágrafos com tentativas de descrições de cenários e personagens que não entregam detalhes quando precisa, fornecendo mais sensações do que qualquer coisa. “O lugar era lindo”, ele nos diz, em vez de nos mostrar. É também repetitiva, com um excesso absurdo de personagens revirando os olhos, franzindo o cenho e assentindo – é sério, isso chega a ser quase perturbador.

Se o leitor sobreviver as cem primeiras páginas com essas repetições truncadas, em construções de frases pouco inspiradas, avançará na história com uma velocidade maior do que um alomântico queimando metal, pois logo esses problemas são abstraídos.

Ou seja, equilibrando sua deficiência de escrita, o autor compensa com uma agilidade narrativa, tornando 600 páginas algo saboroso de ler, com uma história honestamente ágil, que jamais cansa, que jamais perde o fôlego, que jamais se deslumbra em cenas desnecessárias. A história já começa apresentando o que precisa e se constrói em maior parte em cima de diálogos – são as muitas e ótimas conversas entre os personagens que colaboram para essa fluidez na leitura (algo que Rothfuss poderia aprender se não fosse deslumbrado demais com a própria escrita). E não vamos esquecer dos plot-twists. As reviravoltas aqui realmente funcionam e chegam nos momentos certos.

No final das contas…

Mistborn – Nascidos da Bruma: O Império Final é um livro didático, para leitores de primeira viagem, que não precisam quebrar muito a cabeça, nem pensar demais para entender a ideia geral. Sanderson pega na mão do leitor o tempo todo, senta e explica pra ele cada momento que possa não ter ficado muito claro (e não me refiro somente a alomancia, que realmente precisa de bêabá) e pontua parte por parte até se fazer claro, não deixando pontas soltas.

Foi assim que ele conquistou uma legião de fãs. Com esses recursos, com um baita sistema de magia e com personagens cativantes, Mistborn é um ótimo começo de trilogia, até mesmo porque entrega uma história fechada que poderia se encerrar por ali, mas resolveu continuar. E ninguém vai reclamar por isso.

Mistborn - Nascidos da Bruma: O Império Final | livro 1

Nome Original: Mistborn - Nascidos da Bruma: O Império Final | livro 1
Autor: Brandon Sanderson
Editora: LeYa
Gênero: Fantasia épica
Ano: 2014
Número de Páginas: 608

Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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