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O Conto da Aia, de Margaret Atwood

Sinopse: A história de ‘O conto da aia’ passa-se num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes – tudo fora queimado. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes. O nome dessa república é Gilead, mas já foi Estados Unidos da América. As mulheres de Gilead não têm direitos. Elas são divididas em categorias, cada qual com uma função muito específica no Estado – há as esposas, as marthas, as salvadoras etc. À pobre Offred coube a categoria de aia, o que significa pertencer ao governo e existir unicamente para procriar. Offred tem 33 anos. Antes, quando seu país ainda se chamava Estados Unidos, ela era casada e tinha uma filha. Mas o novo regime declarou adúlteros todos os segundos casamentos, assim como as uniões realizadas fora da religião oficial do Estado. Era o caso de Offred. Por isso, sua filha lhe foi tomada e doada para adoção, e ela foi tornada aia, sem nunca mais ter notícias de sua família. É uma realidade terrível, mas o ser humano é capaz de se adaptar a tudo. Com esta história, Margaret Atwood leva o leitor a refletir sobre liberdade, direitos civis, poder, a fragilidade do mundo tal qual o conhecemos, o futuro e, principalmente, o presente.

Fonte: https://www.livrariacultura.com.br/p/livros/literatura-internacional/contos-e-cronicas/o-conto-da-aia-1692354

 

 

Escrito em 1985, O Conto da Aia nunca foi tão moderno. O livro voltou a lista de mais vendidos recentemente não só porque foi adaptado para a televisão em 2017, mas também devido a eleição americana.

O Conto da Aia se passa em um futuro não tão distante, em um Estados Unidos pós um atentado terrorista que matou o então, presidente. O país se tornou uma república teocrática, onde os habitantes quase não tem direito, especialmente se esses habitantes são mulheres. As mulheres nessa nova sociedade tem papeis muito específicos, e nós acompanhamos a história de Offred, que é uma aia, o que torna ela uma propriedade do governo, que existe apenas e unicamente para procriar. Offred vive na casa de Fred Waterford (É daí que vem o nome de Offred, Of Fred, ou De Fred), com algumas empregadas e a esposa dele, que não pode conceber filhos. No seu período fértil, Offred mantém relações sexuais com Fred para que possa engravidar, tudo isso com a supervisão de Serena Joy, a esposa de Fred.

O livro é uma dispotopia que se passa em um futuro não especificado, mas que soa cada vez mais próximo, com regras que parecem ter vindo diretamente do passado. Um dos elementos mais interessantes e assustadores do livro é que a história toda parece muito realista, é passível de acreditar que um dia, o mundo pode se tornar tão conservador a ponto de achar que as mulheres não podem ter seus próprios direitos. Essa característica deu ao livro de Atwood uma aura de premonição, que continua atraindo leitores ao longo dos tempos.

Outra coisa interessante no livro é que Offred, a narradora, viveu parte da sua vida no regime antigo, diferente de muitas distopias, onde o protagonista nunca conheceu a vida de outra maneira, em O Conto da Aia, Offred se lembra de como o mundo e sua vida eram antes da republica de Gilead ser instaurada, e isso é uma ótima ferramenta para mostrar ao leitor como o mundo mudou. Antes de ser uma aia, Offred era casada e tinha uma filha, também tinha um emprego, aonde era bem sucedida. A leitura se torna ainda mais chocante quando nós percebemos tudo que Offred perdeu.

É impossível negar que O Conto da Aia é um livro feminista. Margaret Atwood, a autora é conhecida por sua luta pela causa feminista e o livro fala expressamente sobre os direitos (ou falta deles) das mulheres. Claro que no livro, tudo isso é levado ao extremo, as mulheres não tem direito a terem seu próprio dinheiro e no caso das aias não tem direito nem a seu próprio corpo ou a seus próprios filhos, quando os tem.

Essa maneira de falar da sociedade pelo exagero é uma ótima forma de destacar os problemas que nós ainda enfrentamos hoje.

O livro é narrado em primeira pessoa por Offred, então, nós sofremos na pele tudo que ela sofre e é absurdamente terrível se imaginar na situação dela: presa em uma casa, sofrendo estupros constantemente, muitas vezes sendo punida e maltrata, abaixando a cabeça para qualquer ordem que recebe e despida de todo e qualquer direito. A única coisa que sobra a Offred é a sua mente, que a república não tem acesso e que ela usa para nós contar sua história.

Offred é uma personagem extremamente forte e interessante, mas em muitos momentos do livro, parece que ela está prestes a desistir de tudo e finalmente aceitar seu destino como aia, a única coisa que mantém Offred viva é a esperança de um dia reencontrar sua filha. Essa dicotomia da personagem é extremamente instigante, ela é forte, mas como tudo na vida é costume, Offred se sente disposta a se acostumar com a vida que ela tem. Além de Offred, o livro é repleto de personagens femininas interessantes, como Moira, a melhor amiga de Offred, Ofglen, uma aia que Offred conhece e que a inspira a pensar diferente e até Serena Joy, a esposa de Fred, que no livro é retratada como vilã, mas na série de 2017, ganhou novos contornos que deixam claro que não são só as aias que são reprimidas nessa sociedade. A variedade de orientações sexuais que aparacem na história também torna tudo mais moderno, especialmente para um livro escrito na década de 80.

Embora não seja um livro de terror propriamente dito, O Conto da Aia é sim um livro aterrorizante na medida que retrata não só os aspectos da nossa sociedade, mas que também imagina um futuro extremamente plausível. O livro não faz só críticas a sociedade patriarcal, mas também ao governo e as medidas que visam minar os direitos de cada individuo, ao conservadorismo e a igreja, que deseja manter as pessoas ignorantes e presas a preceitos vencidos e antiquados.

O Conto da Aia já ganhou duas adaptações: Em 1990, com o filme A Decadência de Uma Espécie, que embora bem fiel a obra é um filme um tanto monótono e em 2017, com a série The Haindmaids Tale, que é extremamente fiel e bem produzida. A série da voz a alguns personagens que no livro não são tão importantes, dando todo um novo contorno a história.

O Conto da Aia é um livro totalmente imaginado por Margaret Atwood, mas que flerta com a realidade de uma maneira tão próxima e tão clara que é assustador, e por isso mesmo, merece ser lido.

 

 

 

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Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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