O Mundo Sombrio de Sabrina, na Netflix

A série O Mundo Sombrio de Sabrina é muito autêntica e relevante nas questões sociais. A aposta da Netflix também é uma verdadeira homenagem aos clássicos do terror, sem perder o humor negro.

Adaptação da HQ de mesmo nome, a trama acompanha Sabrina Spellman. Uma garota que, aos 16 anos, é confrontada com o dilema de preservar sua vida normal ou abraçar seu lado negro. E assim, consagrar-se uma bruxa, tal qual seu pai, primo e tias. O produtor e roteirista Roberto Aguirre-Sacasa acerta ao mesclar o tom do horror clássico – e suas inspirações estéticas, como O Exorcista, Suspiria e A Bruxa – com representatividade não panfletária, evidenciada por aqui de maneira clara e natural. Com figuras multiétnicas e personagens desajustados que se mantém unidos. A série trabalha algumas questões sociais de maneira bem amarrada ao enredo principal.

Kiernan Shipka é Sabrina
Kiernan Shipka é Sabrina

A nova Sabrina

Pois vamos deixar de lado o seriado noventista (que tinha um escopo cômico). Vamos atenuar a pegada dos quadrinhos da Archie Comics de 2014. Estes vão ainda mais fundo no horror raiz. Traçam muitos paralelos com casos reais de bruxaria e as escritas de Anton LaVey, o fundador da Igreja de Satã. Em breve será publicado por aqui pela Geektopia.

O Mundo Sombrio de Sabrina encontra o equilíbrio ideal entre o humor negro estabelecido por Tim Burton (tanto na caricatura dos adultos, quanto em alguns diálogos bizarros, tratados de maneira natural), o discurso social contemporâneo que funciona completamente na premissa, e as referências ao terror de várias frentes. Ainda mais considerando que a história soa atemporal. Nunca se sabe se ela se passa nos anos 80, com seus telefones de fio e TV de tubo e sem smartphones; ou se é no presente, mas com estética retrô. Isso permite uma fabulação fantástica em torno de Greendale, que colabora bastante para o andamento do roteiro.

Sabrina e suas tias
Sabrina e suas tias

Os personagens

O elenco está ótimo, a começar por Kiernan Shipka, que abraça sua Sabrina de maneira exemplar. A protagonista é extremamente tridimensional e intrinsecamente bem intencionada. Ela se preocupa primeiramente com sua família e amigos. Sabrina consegue ser empoderada em meio a tudo, é romântica da maneira mais fofa possível e perversa quando precisa. O que pode surpreender os mais sensíveis.

Miranda Otto como tia Zelda e Lucy Davis como tia Hilda, roubam a cena toda vez que aparecem. Equilibram frieza e dureza com doçura e boa vontade. Enquanto Chance Perdomo tem conquistado uma legião de fãs com um dos melhores personagens da produção. A figura do sensato e atencioso Ambrose, primo de Sabrina.

Entre os melhores amigos dela, temos Jaz Sinclair como Rosalind WalkerLachlan Watson como Susie Putnam; e Ross Lynch como Harvey Kinkle. Todos os três humanos carregam alguma forte conexão com o lado sobrenatural e ajudam a fortalecer a narrativa com essa dualidade; Harvey, aliás, funciona otimamente como namorado de Sabrina. O romance dos dois é muito autêntico, leve e natural. A apaixonante Tati Gabrielle é outra que impressiona na figura de Prudence (o trio das Irmãs Estranhas é um brinde à parte). Enquanto Gavin Leatherwood como o conveniente e eficiente Nicholas Scratch ainda não disse a que veio.

Michelle Gomez como Mary Wardwell e Richard Coyle como Padre Blackwood são interessantes antagonistas. Realizam um jogo complexo de gato e rato, ora ajudando, ora atrapalhando a protagonista. Mas essa indecisão do roteiro por vezes atrapalha a compreensão do verdadeiro inimigo. Sabemos que no fundo, Sabrina pretende um dia derrubar o Senhor do Inferno. O grande desapontamento mesmo fica por conta do gato Salem, uma grande promessa durante a campanha de marketing, que, fora uma sensacional cena inicial contra um espantalho, não tem nada a fazer na trama, sendo completamente esquecido ao longo dos episódios. Stolas, o corvo da Madame Satã, por exemplo, é muito mais relevante.

Sabrina e seus amigos
Sabrina e seus amigos

O Mundo Sombrio de Sabrina e suas referências

Além de curiosas e bem atreladas situações a clássicos do gênero, como A Noite dos Mortos Vivos, A Mosca e O Abominável Dr. Phibes, existem também brincadeiras com outras produções marcantes. Tais quais o Drácula de 1931 e A Noiva de Frankenstein. A série ainda sabe trabalhar o humor negro de maneira ousada, espelhando não só o catolicismo (historicamente o grande inimigo das bruxas), como qualquer instituição religiosa, criando assim interessantes ícones, como a Igreja da Noite, um padre que realiza as missas, a devoção cega de seus seguidores satanistas, as frases divertidas (“maldito seja”), um Pai Nosso às avessas, a maneira como intitulam o Deus cristão (“o falso Deus”, que pode gerar polêmica entre alguns conservadores que não compreendem o entretenimento), entre outros elementos extremamente bem-vindos para uma produção que é autenticamente uma obra de terror, mesmo com amenidades aqui e ali.

Alguns episódios, como aquele situado dentro de um pesadelo, o que envolve um exorcismo (repleto de jumpscares) e um mórbido que trás um morto de volta à vida, além da passagem pelo limbo, são grandes assinaturas da proposta do seriado, que coloca uma protagonista cheia de boa vontade, lidando com um passado mal contado. A medida que também esconde a verdade para seus amigos, e assim pouco a pouco, vai abrindo uma Caixa de Pandora pessoal. Ao querer fazer o bem sem ver a quem, colocando a magia em favor de uma sorte forçada, para que consiga de qualquer maneira que as coisas deem certo dentro do que intenciona, Sabrina piora muitas vezes a situação, ainda mais quando é conduzida por um caminho cada vez mais sombrio, pela Madame Satã, que a manipula como a uma marionete.

Vale a pena assistir?

A personagem principal tem um ótimo desenvolvimento. Principalmente orbitada por excelentes coadjuvantes, com subtramas próprias que colaboram muito para o andamento do enredo. Dessa maneira, quando o desfecho chega e ela sofre sua primeira transformação – visual e comportamental – aponta-se um futuro incerto para a segunda temporada, que já está sendo realizada.

Mesmo que não conte com nenhuma ousadia cinemática, nem nenhum ângulo mais ousado, a direção de arte brilha ao se inspirar nos clássicos do gênero, com uma fotografia sustentada pelo vermelho que entrega um peso impressionante. Assim, o figurino, o fundo desfocado da floresta e os bem executados efeitos práticos casam com o pouco CGi.

Dessa maneira, O Mundo Sombrio de Sabrina tem em sua primeira temporada a apresentação de todos os seus amáveis personagens, preparando o terreno para uma trama maior que ainda não foi descoberta. A série fica como uma boa pedida para o Dia das Bruxas, divertida e aterrorizante na medida certa.

O Mundo Sombrio de Sabrina

Nome Original: Chilling Adventures of Sabrina
Elenco: Kiernan Shipka, Ross Lynch, Lucy Davis, Chance Perdomo, Miranda Otto
Gênero: Drama, Fantasia, Horror
Produtora: Warner Bros. Television
Disponível: Netflix
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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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