Olhos que Condenam, a tocante crueza da realidade

Baseado em uma história real que tomou conta dos EUA, a minissérie Olhos Que Condenam narra o caso notório de cinco adolescentes negros, rotulados como os Central Park Five, que foram condenados por um estupro que não cometeram. Os jovens do Harlem, Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise tinham entre 14 e 16 anos. Começando na primavera de 1989, quando eles foram questionados sobre o incidente, a série discorre por 25 anos. Destaca a exoneração em 2002 e o acordo firmado com a cidade de Nova York em 2014.

A trama

Escrito e dirigido por Ava DuVernay com bastante sensibilidade, a produção da Netflix se divide em 4 episódios com pouco mais de uma hora. Ela usa de recursos narrativos distintos para expor o famoso caso que arruinou mais de vinte anos da vida de cinco adolescentes. Na primeira parte, acompanhamos a rotina dos futuros acusados até suas idas para o Central Park. Aí se sucede um hediondo estupro, o que culmina com acusações completamente aleatórias, por duas razões claras: racismo intrínseco; e a polícia tinha que culpar alguém, já que não tinha nenhum suspeito. Cenas emocionalmente pesadas são mostradas com bastante crueza. Como a lei tratava (e trata) os negros, latinos e outras minorias, mesmo que menores de idade.

Olhos Que Condenam

Para tanto, DuVernay explora a rotina dos jovens, para depois derrubar o muro sobre eles com o incidente. O segundo episódio é um bem desenvolvido enredo de julgamento. Representa muito bem o subgênero, traz surpresas e reviravoltas, até culminar no veredito inacreditável. Nomes de peso sustentam o elenco, como Vera Farmiga, Michael K. Williams e Joshua Jackson, mas são os jovens atores que verdadeiramente brilham aqui, com entregas honestas e emocionantes, de indivíduos que vestiram a camisa de seus irmãos para um trabalho singular (e suas contrapartes adultas também são impressionantemente semelhantes fisicamente).

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O terceiro episódio avança no tempo e continua mostrando o drama das famílias e o poder da mídia racista. Enquanto isso, sem se preocupar com elipse, a diretora vai dando saltos para mostrar como ficaram quatro dos cinco acusados. Assim, continua seu discurso contra o sistema penal americano e contra Donald Trump, uma figura central na disseminação do ódio durante o ocorrido e que agora comanda o seu país.

Caleel Harris em cena de Olhos Que Condenam
Caleel Harris em cena

O último episódio acaba sendo o mais tocante e visceral de todos. Revela como o menos inteligente dos acusados, acabou ficando mais tempo do que os outros e do que devia, fechado em solitárias, pulando de prisão em prisão e sofrendo todo tipo de abuso, da polícia e do ladrão, sem conquistar qualquer chance. Então vê sua vida desmoronar, até uma reviravolta surpreendente. Sendo justamente ele o único que não tinha sido intimado em 1989 (ele só acompanhou o amigo até a delegacia e depois foi levado para dentro do furacão), fica ainda mais revoltante saber tudo o que ele passou, até sua demorada mas justa soltura.

Olhos Que Condenam

Em toda a explanação do capítulo final, DuVernay se perde um pouco no ritmo. Portanto, arrasta por demais situações abstratas e de devaneios do personagem, que usa de um palácio mental para escapar daquela “vida” insuportável. A mensagem já tinha ficado clara da primeira vez, mas a diretora insiste e a repete mais e mais. Certamente, onera um bocado o resultado final, ainda que não arranhe a produção. Mas foi bonito de ver os cinco tendo, ao menos, um “final feliz”.

Olhos Que Condenam foi tão impactante, que a promotora Linda Fairstein (a abominável mulher que correu desesperadamente para acusar crianças de um crime e mexeu todos os pauzinhos para prejudicar suas vidas) acabou tendo de demitir-se dos conselhos do Vassar College e de duas organizações sem fins lucrativos, o que culminou com o abandono de sua agência literária também. Um desfecho merecido para a crueldade, ao menos, mas ainda longe de qualquer redenção.

Olhos Que Condenam

Nome Original: When They See Us
Elenco: Asante Blackk, Caleel Harris, Ethan Herisse, Jharrel Jerome
Gênero: Biografia, Drama, História
Produtora: Forward Movement, Harpo Films, Participant Media, Tribeca Productions
Disponível: Netflix

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