Um Corpo Que Cai, um clássico de 1958

Uma história contada através das cores

Um dos maiores clássicos de Alfred Hitchcock, Um Corpo que Cai adapta o romance lançado quatro anos antes, “Dentre os Mortos”, de Boileau-Narcejac, misturando investigação com flerte no sobrenatural. A história coloca um detetive aposentado que desenvolveu acrofobia, para seguir a esposa do amigo, que tem se comportado de maneira estranha.

Todo o enredo se desenvolve de maneira inusitada. Alterna entre mistérios mosaicistas, situações de rotina bem pontuados com naturalidade (com exceção dos diálogos expositivos, que não funcionavam naquela época, tampouco hoje) e um romance clássico. Certamente conta ainda com uma reviravolta antes do clímax e um desfecho marcante.

Um corpo que cai

Um corpo que cai

Assim, revendo a produção com maturidade, outros detalhes técnicos saltam aos olhos, como o uso das cores para contar a história. Hitchcock é certeiro do começo ao fim. John ‘Scottie’ Ferguson (James Stewart, figurinha carimbada da filmografia do diretor) está sempre vestindo azul, usando o azul (no carro) ou rodeado por essa cor, de seu mundo particular solitário e desolado. É também o espectro que domina o início do filme, na perseguição sobre o topo do edifício.

Madeleine Elster (a belíssima Kim Novak) é coberta de verde (carro idem), até mesmo quando tenta se passar por outra. Ela jamais se desfaz de quem realmente é, independentemente do plano ridiculamente mirabolante de seu comparsa. Quando a moça salta na baía de São Francisco, acontece o primeiro contato de Scottie com o mundo dela, já que as águas são verdes.

Então depois, no clímax, que evoca algo propositalmente fantasmagórico na transformação em um take de Judy Barton em Madeleine Elster, temos o letreiro externo invadindo o ambiente de John novamente em verde (ainda que, durante um beijo, por um breve segundo ele tenha memórias do passado no celeiro, em azul, até retornar ao verde), ou seja, retornando aos braços de seu amor.

Um corpo que cai

Há cores em tudo o que eu vejo

O trabalho impecável com paletas segue para outros personagens e contextos, assim como o amarelo para Midge Wood (de Barbara Bel Geddes, a melhor atriz do elenco). A cor está em sua roupa, em sua cadeira com escadinha e nas paredes de seu simpático apartamento. Ou então o uso do vermelho na apresentação da protagonista, como no restaurante (que possui um papel de parede sempre torto, sempre delirante), que é uma cor de amor e perigo (e que ilumina e emoldura Novak em seu perfil perfeito).

Além disso, é aplicado (junto das demais cores) na sensacional animação que representa um pesadelo para Scottie. O que prova que Hitchcock, além de mestre do suspense e da contação de histórias incríveis, também dominava a “nova tecnologia” Technicolor (que apesar de criada em 1916, só foi atingir seu ápice a partir dos anos 1950) como poucos.

Mas claro, como um bom filme do mestre, não existe um pote de ouro ao final do arco-íris. Só a terrível, trágica e inevitável queda.

Um Corpo que Cai

Nome Original: Vertigo
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: James Stewart, Kim Novak, Barbara Bel Geddes
Gênero: Mistério, Romance, Thriller
Produtora: Alfred J. Hitchcock Productions
Distribuidora: Paramount Pictures
Ano de Lançamento: 1958
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