Luther, um detetive procurando uma continuidade decente

Dividida em três temporadas, com 14 episódios no total, a trama só consegue cumprir o que promete na primeira temporada — e faz isso primorosamente. Qual o lance de Luther? A série trata da história do detetive John Luther (Idris Elba, muito inspirado), um homem obcecado pelos casos que investiga. No início, ele está voltando pro trabalho após sofrer uma crise. Tentando manter seu equilíbrio mental e emocional, ele conhece Alice, uma psicopata que se torna sua confidente e conselheira, enquanto tenta lidar com o afastamento da esposa.

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E toda essa primeira temporada cumpre o que promete, com um bom personagem temperamental, que parece não se ajudar quanto ao lado pessoal, mas que consegue resolver muitos casos complexos no lado profissional, estabelecendo assim um equilíbrio interessante, rodeado de personagens-satélite que funcionam sem precisar ser estereotipados (ou seja, nada do engraçadinho, nada do amiguinho etc, são pessoas comuns vivendo o estresse diário cada um a sua maneira). O formato procedural de bandido-da-semana logo é quebrado, revelando a identidade do criminoso — afinal, a série não se trata exatamente de desvendar isso, mas parar suas ações (e pra cada um, é necessário uma estratégia diferente). Logo no segundo episódio, por exemplo, Luther confronta uma pistola contra o rosto, gerando um dos momentos mais tensos de toda a trama.

Confesso que estranhei nunca tê-lo visto empunhando uma arma sequer e acompanhar ele resolvendo casos tensos só com a mão no bolso muitas vezes pareceu forçado. Mas ok, passa. A primeira temporada é tão boa, que você não liga. E eles ainda tem até um “casamento vermelho” (termo que to cunhando agora pra toda reviravolta sangrenta e chocante envolvendo personagens que aprendemos a gostar em uma série). Alice, Ian, o parceiro Ripley, a delegada equilibrada e a esposa extremamente crível, também ajudam a compor uma boa história… na primeira temporada.

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A segunda e terceira temporada são descartáveis. Na segunda, por exemplo, surge um núcleo completamente desnecessário, envolvendo uma mãe e filha que trazem junto uma subtrama completamente aleatória, que mais atrapalha do que ajuda no enredo. Enquanto que na primeira temporada você acompanha Luther, sempre andando na linha tênue entre estourar o pavio ou se conter (e fugindo do seu passado mal resolvido, onde deixou um violador de crianças se quebrar todo), aqui ele já é uma pessoa bem resolvida e nunca mais tem momentos de surto. Personagens desaparecem sem explicação alguma (delegada, cadê você e toda sua delegacia? o.O ), ele muda de um apartamento pro outro sem necessidade alguma, e dessa vez eles começam a criar fórmulas, colocando em todos os casos algo muito maior, muito mais complexo, causando com isso um lugar-comum. Se todo bandido é fodão, então cadê o peso do próximo? Isso deixa de existir. A série ainda tem bons momentos na segunda temporada, mas aguentar aquela mãe com a filha se torna um exercício e tanto de paciência.

De repente, a terceira temporada desaparece com essas duas personagens, faz Luther se mudar DE NOVO pra outro lugar, e aí tudo começa a afundar, com um roteiro completamente desastrado, repetindo fórmulas sem parar (mais uma morte chocante, mas aqui a apelação é visível e desnecessária), episódios clonados da primeira temporada, um romance capenga e inacreditável, situações semelhantes, e um novo personagem obcecado em prender o protagonista, mas sem sustento algum, apenas pra gerar um contraponto a ele (gerando os momentos mais irritantes de toda a série). Tudo forçado, tudo mal encaixado, tudo muito bobo e feio. Com episódios arrastados e vilões ocupado dois episódios cada, Luther se encerra desesperadamente chato e muito distante do que foi um dia.

Se puder, eu gostaria de apagar a segunda e terceira temporada da mente. E se ainda der tempo, eu gostaria de recomendar apenas a primeira temporada, que é o Luther que vale.

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Douglas MCT

Douglas MCT já escreveu para os gibis da "Turma da Mônica", roteirizou o desenho animado "Galera Animal" da TV Globo, participou do enredo do game "Chico Bento" para as redes sociais, é autor dos quadrinhos “Edgar Alan Corvo”, "SUPER" e “Hansel&Gretel”, e dos livros "O Coletor de Almas" e da série "Necrópolis".

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