A Maldição da Mansão Bly – luto, memória e superação

Produção abre mão do horror fantasmagórico enquanto presta tributo a outros monstros clássicos

Em 2018, Mike Flanagan realizou a maior minissérie daquele ano, ”A Maldição da Residência Hill”, que adaptava o livro ”A Assombração da Casa da Colina”, de Shirley Jackson e conseguiu entregar um enredo ao mesmo tempo assombroso (com tudo que o audiovisual pode oferecer) e dramático (com as tramas pessoais de cada membro da família).

Tentando replicar o sucesso da antologia ”American Horror Story” para a Netflix, o realizador agora adapta o maior conto de horror da história, ”A Outra Volta do Parafuso”, de Henry James (que eu sempre digo que foi o único do gênero na literatura que conseguiu me deixar uma noite sem dormir), escrito em 1898.

Ele coloca uma jovem preceptora para cuidar de um casal de crianças em uma antiga mansão isolada no interior de Londres. Ali ela começa a desconfiar que dois fantasmas influenciam os irmãos. Mas sempre deixando em aberto se tudo é realmente sobrenatural, ou fruto da psique da protagonista (já que é narrado por ela). E com um desfecho dúbio, sendo um dos maiores clássicos das histórias de fantasmas de todos os tempos.

A Maldição da Mansão Bly

A Maldição da Mansão Bly

”A Outra Volta do Parafuso” já teve inúmeras adaptações, do elogiado ”Os Inocentes” (até hoje o único que se aproxima mais do original), passando pelo fantástico ”Os Outros” (que empresta a atmosfera, mas segue por outro caminho), do nacional ”Através da Sombra” (que coloca os personagens em uma fazenda brasileira e funciona super bem), até o recente ”Os Órfãos” (que não compreende a obra e a descaracteriza em seu fim).

Portanto, ciente disso, Flanagan não tenta reinventar a roda. Ele sabe que parte de seu público já vai sabendo do que se trata e o que esperar. Assim, situando a história em 1987 (com idas e vindas no tempo, seja viajando até o século 17, indo para o início dos anos 1980, ou até 2007), o diretor pega o que existe no livro de origem e o transforma, sem jamais o desrespeitar ou mudar sua essência. Preserva todos os atributos do clássico, à medida que embute novos e coesos elementos, desde a sexualidade da protagonista, até das intenções do tio das crianças, que funcionam nesse enredo prolongado.

Você gosta de terror?

O terror de Henry James não é tão longo e dada sua natureza concisa, é o tipo de trama que funciona melhor em um média-metragem ou longas mesmo, como já fora feito. Sendo estendido para 9 episódios (nos quais alguns inevitavelmente se arrastam), Flanagan também se viu obrigado a enxertar outros detalhes para encorpar o drama, emprestando criaturas de outros contos.

A mais notável dela certamente é a Llorona (ou Chorona). Ela é uma assombração de lendas mexicanas, que aqui ganha contornos espanhóis (vide os nomes Viola e Perdita) e pequenos ajustes em sua origem. Assim, mesmo completamente distante da premissa original, funciona na proposta dramática da série, seja para ter um “monstro principal”, seja para exigir um importante sacrifício físico e moral.

A Maldição da Mansão Bly

Mais monstros

O outro é ”O Médico e o Monstro”, de Robert Louis Stevenson, que recai sobre o tio das crianças, que nem ao menos esconde a referência (Henry Wingrave é uma versão de Henry Jekyll, ou o Sr. Hyde, afinal), mas aqui serve apenas para a subtrama do sujeito em espectro de culpa e dualidade, sem de fato interferir na história principal, que também conta com outra assombração oriunda de trauma, o ex da protagonista, morto em um acidente.

Os fantasmas de verdade, porém, residem em Bly, mas são os vivos os que realmente guardam os verdadeiros horrores. Iniciando o primeiro episódio exatamente como o epílogo de James (uma história contada dentro de outra), o diretor nunca deixa de se prender ao original. Ele usa os espaços entre um elemento e outro para colocar suas ideias, que funcionam do começo ao fim.

Porém, sendo A Maldição da Mansão Bly pertencente a uma antologia de horror fantasmagórico, no qual seu predecessor foi um enorme sucesso, era de se esperar que este seguisse a mesma toada, algo que não acontece. Até existem fantasmas aqui e ali, sombras suspeitas, momentos de pura tensão e uma atmosfera melancólica e aflitiva, mas tudo foi colocado em uma escala bem abaixo se comparado ao outro. Isso pode frustrar o público que veio esperando assistir a um pesadelo.

O que aconteceu?

Sim, Residência Hill trabalhava – muito bem – o drama e a vida de seus personagens, com momentos onde a realidade assustava mais do que os espíritos. Porém, lá o horror gótico caminhava paralelamente com o contemporâneo, enquanto que aqui o drama se sobrepõe e assume as rédeas. Continua sim bem realizado, com texto rico, diálogos muito bem escritos, alto valor de produção e atuações impecáveis, mas se Hill seguia pela sinuosa estrada de ”Invocação do Mal”, Bly caminha mais tranquila e tristemente pela via de ”Ghost – Do Outro Lado da Vida”. Em outra antologia, onde o amor prevalecesse, talvez tivesse funcionado melhor.

Outro “porém” da série se dá em sua previsibilidade e não me refiro à história principal. Quem conhece o livro ou outras de suas adaptações, já sabe para onde as coisas irão dar. Mas sim das saídas inéditas mesmo, que o próprio Flanagan propôs. Ou ele acredita realmente que seu público não vai sacar quem são aquelas figuras apresentadas nos minutos iniciais do primeiro episódio? Ou de que havia sequer uma mera necessidade de ter feito eles se revelarem nos minutos finais do último episódio? São soluções que vemos em novelas brasileiras para um público de massa. Aqui soam quase desrespeitosas para uma produção de nicho como essa, afinal, fica evidente que se está subestimando o espectador.

Acesse aqui nossa seção de resenhas de séries

No mais, também me parece claro que, ao invés de 9 episódios, seis teriam funcionado melhor para A Maldição da Mansão Bly. Compreendo a paixão do realizador com seus personagens, mas nem todos precisam de um episódio inteiro de background, vide Henry, Mr. Grose e a própria Viola. São episódios que intrigam sim e recompensam o público no final. Entretanto, não precisavam ter um episódio exclusivo. Isso certamente deixa parecer uma clara enrolação para esticar a história, sem necessidade.

A Maldição da Mansão Bly

O elenco

A lindinha e queridinha da Netflix Victoria Pedretti (que além de Hill também já esteve presente na segunda temporada de ”Você”) consegue entregar uma protagonista carismática e humana, empática e divertida, que guarda seus próprios traumas, mas também tem sua própria força. T’Nia Miller surpreende com uma nova visão sobre a governanta da mansão. Sempre aérea, ela guarda segredos dos quais nem tem ideia.

Rahul Kohli e Amelia Eve são os responsáveis por manter a história com os pés no chão; enquanto que Oliver Jackson-Cohen (também vindo de Hill) e Tahirah Sharif, fazem o trágico casal Quint e Jessel, de extrema importância para o enredo. Henry Thomas (mais um oriundo da temporada anterior) faz o evasivo tio das crianças, duas adoráveis figuras, do estranho Benjamin Evan Ainsworth, à talentosa e encantadora Amelie Bea Smith. Carla Gugino retorna no começo e no fim, narrando a produção, que também traz de volta Kate Siegel em uma papel especial.

Mike Flanagan é um apaixonado pelo horror gótico e pelo drama humano, portanto ele não erra mão e sabe o que faz. Tudo apresentado em A Maldição da Mansão Bly foi milimetricamente pensado, ou seja, foram escolhas. Escolhas essas que tiveram um preço, abrindo mão do terror prometido, em prol de um dramalhão sobre amores perdidos. Torço que na terceira temporada ele retome a essência de sua antologia. Mas é uma nova visão sobre um clássico literário e uma visão respeitosa, que perturba sim, mas emociona muito mais do que assusta.

A Maldição da Mansão Bly

Nome Original: The Haunting of Bly Manor
Elenco: Amelie Bea Smith, Benjamin Evan Ainsworth, Henry Thomas
Gênero: Drama, Horror, Mistério
Produtora: Amblin Television
Disponível: Netflix
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