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Helter Skelter, de Vincent Bugliosi

De Vincente Bugliosi

Helter Skelter, de Vincent Bugliosi narra o julgamento e automaticamente o crime e o passado de Charles Manson e da família Manson, responsáveis por uma série de assassinatos na década de 60.

O autor, Bugliosi foi advogado no caso e posteriormente escreveu não só esse livro, mas também outros livros sobre crimes reais, como Outrage (sobre o caso O.J. Simpson) e Parkland (sobre o assassinato de Jonh Kennedy).

Charles Manson, que faleceu no ano passado, é provavelmente um dos assassinos em série mais conhecidos do mundo. Apesar disso, Manson nem esteve presente nas cenas dos crimes que sua “família” cometeu. No livro, Bugliosi nos fala sobre o passado de Charles e dos possíveis crimes que ele cometeu antes de se unir a família, e também fala sobre alguns dos membros mais importantes do clã. Uma das coisas mais interessantes do livro é a psicologia que Manson usava para conquistar e convencer as pessoas a fazerem qualquer coisa que ele queria. Muitos dos jovens que se juntavam à família diziam que parecia que Manson conseguia ler a mente deles e que ele falava exatamente o que eles estavam pensando, embora isso faça Manson parecer um ser quase sobrenatural (ou o filho do Homem – Man Son, como ele mesmo se intitulava). Existe uma explicação perfeitamente racional: Manson recrutava jovens no começo dos seus 20 anos, que não estavam estudando, 10não tinham emprego, muitas vezes não tinham amigos e tinham problemas familiares e passavam por aquela fase de não saber muito bem o que querem da vida. Manson era capaz de reconhecer quem poderia ser influenciado a ponto de fazer o que ele queria.

No dia 9 de Agosto de 1969, a Família Manson invadiu uma casa em Los Angeles, onde a atriz Sharon Tate, esposa de Roman Polanski e grávida de 8 meses na ocasião, estava hospedada com alguns amigos. O grupo matou todo mundo que estava na casa, menos o caseiro, que estava dormindo e que na manhã seguinte, não sabia nem o que tinha acontecido e automaticamente se tornou um suspeito. Além disso, a família deixou mensagens escritas com sangue na parede da casa. Na noite seguinte, eles entraram em outra residência e mataram o casal Leno e Rosemary Labianca, e repetiram o processo de escrever mensagens com sangue na parede.

Alguns dos membros da Família Manson, durante o julgamento

No livro, Bugliosi conta o que se passou antes dos assassinatos, descreve com detalhes as duas fatídicas noites e depois, passa bastante tempo discutindo o julgamento, do qual ele também fez parte.

O autor não poupa nomes, ele inclusive cita nomes de pessoas famosas com quem Manson manteve relações de amizades e também não poupa o leitor de detalhes dos crimes, que foram extremamente violentos.

O que torna o livro tão interessante é o panorama que está por trás de toda a história dos crimes da Família Manson. Os crimes aconteceram exatamente em 1969, no final da década mais esperançosa de todas, cheia de protestos, lutas por direitos iguais e pedidos de paz e amor, o quanto absurdo é pensar que uma série de crimes tão brutais poderia fechar a década dos Hippies?

A história também é cheia de coincidências assustadoras: No ano anterior, Polanski tinha dirigido o filme o Bebê de Rosemary, filmado inteiramente no Dakota, em Nova York, prédio que posteriormente seria residência de John Lennon até o seu assassinato em 1980, que aconteceu exatamente na porta do Dakota. Manson tirava muito de seus ensinamentos do Álbum Branco dos Beatles. Helter Skelter, que dá titulo ao livro é uma música desse disco, que segundo Manson falava sobre a guerra entre os brancos e os negros. Mais tarde, Polanski também se envolveria em outro escândalo, o estupro de uma garota de 13 anos, em 1977, crime pelo qual ele nunca foi preso e no ano passado, mais mulheres acusaram o diretor de abuso sexual, atualmente ele conta com cinco acusações, todos os supostos abusos teriam acontecido quando as vítimas eram menores de idade (uma delas tinha apenas 10 anos).

Sharon Tate, uma das vitimas da Família Manson

O livro não entra nesses detalhes, ele não fala tanto das vítimas, mas foca bastante nos assassinos, por ser um livro extremamente detalhista, em alguns momentos ele pode se tornar cansativo, especialmente nas partes do tribunal, mas nada que não possa ser relevado em vista da história que o leitor tem nas mãos.

Por se tratar de um livro sobre um crime real, eu não o recomendo para quem tem o estômago fraco e não está acostumado a leituras com muita violência, mesmo para os leitores constantes de terror, o livro pode ser pesado e infelizmente, o livro não foi traduzido para o português, o que reduz a leitura apenas para quem lê em inglês.

Helter Skelter é provavelmente o livro mais completo sobre o caso Tate-Labianca, e automaticamente sobre o comportamento de Manson e de uma quantidade relativamente grande de jovens que nós nunca iremos entender, por mais que pesquisemos, leiamos e escrevamos sobre isso, mas talvez esse livro chegue o mais perto possível disso e de quebra, ainda explica os costumes e a contracultura dos anos 60 e como um ato tão brutal e monstruoso pôde finalizar uma década de esperança.

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Fernanda Cavalcanti

Formada em cinema, apaixonada por literatura, divide seu tempo livre entre ler, escrever e dançar. Gosta especialmente de terror, mas lê/assiste de tudo. Também escreve para o blog Além da Toca do Coelho.

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