Opinião: “Maratonar” séries é um saco

Séries não são episódicas à toa

Eu estava na faculdade na época em que passava Lost. Nas quintas-feiras, eu e meus amigos de classe acordávamos bem mais cedo do que o comum para poder assistir ao episódio que tinha passado na noite anterior, e que estava baixando ilegalmente em nossos computadores enquanto dormíamos. Eram tempos diferentes: levava horas para baixar um vídeo e os estúdios ainda não tinham entendido que o resto do mundo não queria esperar algumas semanas para assistir filmes e séries, depois de já ter estreado nos Estados Unidos.

Era crucial assistirmos ao episódio antes de chegarmos na Universidade, pois não queríamos ficar de fora das discussões. Desenvolver teorias, comentar episódios, ficar maluco com as questões que eram jogadas na nossa cara, uma atrás da outra. E as discussões se estendiam até o próximo episódio, cada um de nós reassistindo e destrinchando fóruns de internet em busca de pistas e teorias. Na época, eu já tinha chegado à conclusão de que aquela era a única forma possível de se assistir Lost. O final da série certamente não seria capaz de saciar tantos mistérios e só poderia ser decepcionante. Se chegar na resposta final não seria divertido, então o caminho até lá que deveria ser a diversão. E Lost soube, como nenhuma outra série antes dela, usar esse caminho.

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Se Lost fosse uma produção de streaming, lançada em blocos de temporada fechados, ela jamais daria certo do jeito que deu. Maratonar séries tirou grande parte da diversão de assistir séries: a discussão, os comentários, desenvolver teorias e xingar um ou outro episódio em específico por serem pura “encheção de lingüiça”. Séries como Breaking Bad davam a cada episódio, diversão suficiente para uma semana. ou seja, assistir era só o começo! Até sair o próximo episódio surgiam tirinhas no Breaking Bad Comics e tinha um novo episódio do podcast That is Veggie Bacon para ouvir. Acompanhar a série é parte da diversão – e eu basicamente só assisti as últimas temporadas de Game of Thrones pra poder entender as piadas do Chrys Watches GOT.

Aí veio a Netflix…

A primeira vez que eu senti falta de episódios avulsos que gerassem discussão foi logo na primeira temporada de Stranger Things. Eu não tenho a menor dúvida que essa série seria muito melhor se o público tivesse uma pausa para discussão entre cada episódio. A aura de mistério que os roteiristas astutamente erguem é logo desfeita no autoplay do próximo episódio proporcionado pela Netflix. Imagine assistir uma série como Dark tendo tempo para o twitter estabelecer suas teorias e comentar os acontecimentos.

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Se isso é um grande problema para séries de mistério, até mesmo as comédias e dramas poderiam se beneficiar com uma pausa. É uma delícia discutir cada episódio de Barry ou de Better Call Saul. É um tipo de discussão que eu sinto falta mesmo em séries que carecem de mistério, como “Justiceiro” ou “The Marvelous Mrs. Maisel”. Tudo o que eu queria era mandar semanalmente um “assistiu?” para meus amigos a cada episódio de “The Boys” lançado.

Mais tempo de marketing

A ideia de gerar uma nova discussão a cada episódio também poderia ser proveitosa para o marketing. Atualmente, o lançamento de uma nova temporada é acompanhado de um pico de comentários e propaganda espontânea que rapidamente morre. Se não fosse tudo lançado de uma vez, provavelmente o pico de comentários seria menor, porém duraria mais tempo. Ainda se mantendo no mundo de Dark, certamente a internet estaria discutindo teorias malucas de viagem no tempo a cada episódio lançado. Assim, ao invés da série sair dos trendings após alguns dias, ela voltaria semanalmente, como se fosse o Faustão.

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Vamos tomar umas para discutir esse episódio

Isso também daria tempo suficiente para as pessoas que desconheciam a série se atualizarem para entrar na discussão. Conheço pessoas que assistiram todas as temporadas de Game of Thrones em uma semana para conseguir entrar no hype do último episódio.

Mais tempo em cada mundo

Outra estatística que eu tiro do meu próprio rabo: você lembra mais e melhor de uma série quando a assiste de forma episódica. Não só da série toda em si, mas também da ordem dos fatos e ganha uma melhor noção das coisas que aconteceram simultaneamente. Geralmente, as séries que eu maratonei durante o lançamento precisam ser completamente reassistidas um pouco antes de sair uma nova temporada.

Há séries que eu propositalmente prefiro não maratonar para poder apreciar melhor e por mais tempo aquele mundo que ela me coloca. Eu quero ter mais tempo para refletir em meus próprios pensamentos a cada episódio de Black Mirror assistido e quero me desgraçar apropriadamente da cabeça com cada minuto de Bojack Horseman, então costumo dar intervalos entre cada episódio – propositalmente nunca assisti mais de um episódio por dia de ambas as séries e, no caso de Bojack, cheguei a assistir 3 ou 4 vezes o mesmo episódio antes de passar para o próximo.

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Estou ciente que, tal qual na minha batalha solitária contra trailers, também sigo sozinho nesses hábitos. Acredito que a maioria das pessoas ame maratonar uma série e alguns até preferem que a história esteja devidamente concluída – com series finale e tudo – antes de pular em um mundo novo, assistindo tudo como se fosse um gigantesco filme de mais de 70 horas.

Não sou ninguém para dizer o que é certo ou errado, mas só consigo afirmar que a maioria das produções não nasceram para serem consumidas dessa forma. Quando bem feito, dividir uma história em episódios permite entender melhor as mudanças de cada personagem, tal qual os fatos que levam às suas decisões. É ensinado nos cursos de roteiros sobre a dificuldade em criar histórias episódicas: uma gigantesca mudança deve ser ocasionada por dezenas de pequenos amadurecimentos no decorrer do tempo. Como um grande fã e estudante de storytelling, eu gosto de apreciar esse formato, por isso é escolha minha não assistir tudo de uma vez.

Eu recomendo. Segura no cliffhanger aí. Maratonar séries é um saco.

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