Utopia – 1ª temp. – Pandemia. Ultraviolência. Nerdices.

Uma salada de referências que quase chega lá

Adaptado de uma série britânica de 2013 pela escritora best-seller Gillian Flynn (que nas telonas e nas telinhas rendeu ”Garota Exemplar” e ”Objetos Cortantes”, respectivamente), Utopia conta com uma ficção conspiracionista que pode vir a ser idolatrada por adoradores de “a vacina foi criada para eliminar a humanidade” e a “Terra é plana”, entre outras, justamente pela sua temática: uma pandemia viral se instaura sobre o planeta, enquanto um grupo de nerds se junta ao redor de uma HQ que já teria previsto os eventos presentes.

Iniciando a escrita do projeto em 2015, Flynn jamais imaginou o impacto que essa história (recontada) teria no mundo de hoje. Afinal, a Amazon Prime Video lançou a série há algumas semanas, bem no meio do furacão do coronavírus. Portanto, a produção ganha pontos só pela premissa atual (ainda que os motivos que levem ao vírus fictício e a maneira como os governos lidam com ele sejam levemente distintos da nossa realidade).

Utopia

Utopia

O outro ponto que chama a atenção, é essa velha e boa reutilização dos desajustados para tentar salvar o mundo. O fato de usar quadrinhos como pedra fundamental e objetivo de seus protagonistas, contribui muito para fisgar um grande número de espectadores. Por fim, uma dose absurda de reviravoltas chocantes, mortes terríveis e ultraviolência gratuita para temperar (e indicar que essa obra não é para o mesmo público de ”Stranger Things”, mesmo que evoque em certos momentos uma familiaridade atmosférica).

Dessa maneira, é seguro afirmar que Utopia começa com uma pegada meio ”Os Goonies”, flerta descaradamente com convenções geeks como o espanhol ”Origens Secretas”, e caminha na direção e nos rastros de sangue de Tarantino, misturando variadas teorias da conspiração (que sim, vão dar gatilho e argumentos para conspiracionistas, que precisavam de tal oportunidade pop), fanatismo nerd e um pano de fundo pandêmico.

Uma mistureba

Flynn por outro lado, não se parece com Flynn, ao querer abraçar todo tipo de ideia para executar aqui. Ela forma uma salada de ocorrências que pode desorientar o espectador mediano. A ultraviolência gratuita (olhos sendo retirados com colheres, crianças morrendo com máscara de gás, pessoas sendo mortas sem qualquer explicação e… mais crianças e crianças sendo assassinadas) não consegue se justificar. Algumas ações casam dentro da proposto, o restante se evidencia apenas como meio para gerar comentários nas redes sociais e atrair atenção para a série.

Sim, a morte completamente inesperada de um importante personagem gera um choque positivo, porque tem função narrativa. Entretanto, alguns outros (como uma família inteira pertencente a uma pessoa envolvida com o grupo do mal), são apenas forçados. Isso não é ousadia, é fetiche. Mas Utopia não se define a isso, ainda que insista na sangueira.

Utopia

A trama de Utopia

Colocando a pandemia como algo a ser impedido, o que cativa na produção é primeiramente a junção dos protagonistas numa comic con (que rende ótimos e identificáveis momentos) em torno de um objetivo comum: a HQ que dá título a série. Numa pegada adulta e arrojada meio estilo Vertigo, que não só é belamente ilustrada (surpresa: no mundo real, pelo paulistano João Ruas e equipe), como também parece imbuída de uma trama realmente instigante. Envolve pequenos, metafóricos e sutis simbolismos que dizem mais do que os desenhos bonitos querem mostrar.

Poucos são os leitores que captaram a mensagem. E são justamente esses que se juntam para encontrar a última história, que dirá como impedir os terríveis eventos e derrotar o vilão: O Sr. Coelho. A protagonista do gibi, aliás, assim como seu rival, existem no mundo real do seriado, o que aumenta a escala de entretenimento durante os 8 episódios.

A equipe

O elenco tem bom entrosamento e diverte, com boas tiradas de humor, mesmo em meio a tanta matança, a começar pela adorável Jessica Rothe (dos dois gostosinhos ”A Morte te dá Parabéns”), passando pelo casal formado por Ashleigh LaThrop e Dan Byrd (que seguram no carisma), o bizarro e alucinado personagem de Desmin Borges (uma mistura improvável de Borat com Olavo de Carvalho), os fofinhos e sagazes Farrah Mackenzie e Javon ‘Wanna’ Walton, Cory Michael Smith (que sai de ”Gotham” para fazer outro papel de cuzão), além dos grandes nomes, como o sempre impagável Rainn Wilson (de ”The Office”) e John Cusack, que se diverte sendo humanamente vilanesco.

O mundo audiovisual, por alguma razão inexplicável, continua insistindo no nome de Sasha Lane. Aqui, ela assume como uma das protagonistas, mas é completamente carente de vitalidade ou interesse, dado sua falta de talento já evidenciada em outras produções. Sim, sua personagem é meio louca, meio apática por natureza, mas nem nos pequenos momentos em que cede às emoções, Lane é capaz de envolver o público com seu olhar perdido. O sempre esquisito Christopher Denham, no entanto, acaba sendo não só o melhor do elenco, como tendo o melhor personagem da trama e que pode ter criado um dos melhores assassinos da cultura pop atual.

Inconstante e imprevisível, Utopia pode ganhar o público pela nerdice aqui, a violência catártica ali, o discurso de vírus acolá, mas vai engasgando perto do desfecho, usando batidas clichês quase desesperadas por atenção a fim de manter os holofotes para si do começo ao fim, algo que não consegue, é claro, mas diferentemente de seu primo ”Hunters”, que não tem uma identidade, essa tem DNA de sobra. Agora, só precisa baixar a bola e seguir de onde parou (com um gancho, é claro), porque sua continuidade promete.

Utopia

Nome Original: Utopia
Elenco: John Cusack, Ashleigh LaThrop, Dan Byrd, Rainn Wilson
Gênero: Ação, Drama, Mistério
Produtora: Amazon Studios
Disponível: Amazon Prime Video
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